
No dia 11 de fevereiro (2026), no auditório do Dunia Hotel Bissau, sob um painel que evocava “Vozes pela Paz”, cerca de uma centena de líderes religiosos – imãs, padres e irmãs católicos, pastores evangélicos e balobeiros – selaram um compromisso histórico: transformar décadas de convivência espontânea num fórum permanente de diálogo, capaz de antecipar e desativar os riscos de radicalização numa região cada vez mais vulnerável à polarização religiosa. Nesse dia uma fotografia tornou-se viral: o abraço feliz e espontâneo entre um padre jesuíta e um imã. O mundo precisa mais de abraços felizes.
Em Portugal, a esquerda e direita jogam pingue-pongue entre os antissionistas e pró-regime iraniano (a esquerda[1] segundo a direita; já agora a resposta [2]), e os pró-sionistas e defensores de um Portugal “autêntico” ou “real”[3] replicando a máxima – “Deus, Pátria, Família”[4] (a direita), no fundo numa aproximação à predominância do catolicismo romano (com impressionantes 80,2% a declarar-se católicos nos censos [2021], porém com frequência efetiva em ¼ desse valor). Isto num contexto em que “a administração de Trump não consegue explicar por que razão os Estados Unidos entraram em guerra com o Irão, nem qual é o objetivo dessa guerra. Agora, nem sequer consegue decidir se a guerra ainda está em curso.”[5] O mesmo autor, publicou recentemente o livro “O Plano – Projeto 2025. A «Bíblia» de Trump para Transformar a América e o Mundo.”[6] Nesse livro alude à visão “a família americana” defendida pela fundação Heritage[7] e adotada pelo movimento MAGA[8].
Segundo Hans Kung “não haverá convivência humana sem um ethos mundial das nações; não haverá paz entre as nações sem a paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem o diálogo entre as religiões.”
É isso que o Observatório da Paz tem feito na Guiné-Bissau com a institucionalização do Fórum dos Líderes Religiosos a 11 de fevereiro deste ano[9].
«Aquilo a que estamos a assistir é a derrocada dessa forma de conceber a relação entre os povos de que a ONU foi um dos símbolos e o regresso, assumido, de uma ideologia imperialista: os “nossos” valores são melhores do que os “deles”, por isso é legítimo invadi-los, exterminar o maior número possível “deles”, criar de raiz sociedades melhores, limpos os escombros das anteriores», escreveu Cláudia Santos num artigo de opinião no Público[10]. E, continua Santos, “começa-se por se dizer que tem de se castigar quem andar de burca cá”[11]. Numa ação de islamofobia num país onde menos de 1% da população é muçulmana.
É precisamente por isso, em que em 2026 é fundamental assinalar o Dia Internacional para Combater a Islamofobia, assinalado anualmente a 15 de março, uma data proclamada pelas Nações Unidas em 2022 com o objetivo de promover a compreensão intercultural e combater o aumento global do ódio dirigido a comunidades muçulmanas. A escolha deste dia não é aleatória: marca o aniversário dos ataques terroristas de 2019 em Christchurch, na Nova Zelândia, onde 51 pessoas foram assassinadas em dois ataques a mesquitas durante a oração de sexta‑feira. Estes acontecimentos desencadearam uma resposta internacional que sublinhou a urgência em enfrentar todas as formas de intolerância religiosa.
A intolerância e a discriminação contra os muçulmanos existem há muito tempo, mas intensificaram-se nos últimos anos devido a fatores como a «guerra contra o terrorismo», a insegurança económica e a crescente diversidade em muitas sociedades. As narrativas dos meios de comunicação social e a retórica política têm frequentemente alimentado o medo e o ressentimento, retratando os muçulmanos como extremistas e uma ameaça à segurança. Esta mentalidade de «nós contra eles», combinada com uma compreensão cultural limitada, reforça estereótipos prejudiciais.
“Vamos erradicar o flagelo da islamofobia de todos os países e comunidades.”
Secretário-Geral da ONU, António Guterres
Como resultado, muitos muçulmanos enfrentam discriminação, incluindo agressões verbais e físicas, discriminação com base na religião, acesso desigual ao emprego, à habitação, aos cuidados de saúde e à educação, e restrições à expressão pública da sua religião. Podem também sofrer discriminação múltipla com base na etnia, na situação económica, na cidadania e no género.
Para combater este fenómeno, António Guterres considera essencial que os governos promovam a coesão social e protejam a liberdade religiosa, que as plataformas online combatam o discurso de ódio e que os indivíduos se oponham ativamente ao fanatismo e à xenofobia[12].
Na Guiné-Bissau, os líderes religiosos foram os primeiros a perceber a ameaça do radicalismo e extremismo violento que persiste nos países da sub-região. “A Guiné-Bissau está inserida no seio de uma vizinhança violenta. O Sahel é a crise humanitária e de segurança que mais cresce no mundo. Tornou-se o epicentro do terrorismo internacional, bem como dos golpes de Estado mas quem sofre diretamente esse custos são as suas próprias populações”[13], disse Alex Vines, à data em representação da Chatham House. Os líderes religiosos sabem que a Guiné-Bissau tem sido um país com um elevado grau de tolerância inter-religiosa e inter-étnica, mas ainda assim persistem as situações que devem ser mediadas e prevenidas através do diálogo inter-religioso e através de respostas sociais.
O recentemente falecido filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas escreveu: “O conceito do agir comunicativo pressupõe a linguagem como médium de uma espécie de processos de entendimento ao longo dos quais os participantes, quando se referem a um mundo, manifestam de parte a parte pretensões de validade que podem ser aceitas ou contestadas.”[14]
Em Génesis 25: 9[15] lemos “Os seus filhos Isaac e Ismael deram-lhe sepultura na gruta de Macpela, no campo de Efron, o hitita, filho de Soar, que está em frente de Mambré.” Afinal, os dois irmãos aparentemente separados, sempre tiveram vasos comunicantes e a amizade entre os dois junta-os também para enterrar o pai, Abraão. É esta amizade que se solidariza num diálogo inclusivo que o mundo precisa hoje.
João Monteiro | IMVF
[1] https://observador.pt/opiniao/esquerda-irao-e-venezuela/
[2] https://www.publico.pt/2026/02/09/opiniao/opiniao/esquerda-portuguesa-ayatollah-irao-luta-2164058
[3] https://www.scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752018000200011
[4] https://www.publico.pt/2026/01/24/opiniao/opiniao/deus-patria-familia-trabalho-brutalidade-ma-educacao-2162323
[5] https://www.theatlantic.com/newsletters/2026/03/trump-iran-war-confusion-mixed-messages/686320/
[6] https://www.bertrand.pt/livro/o-plano-david-a-graham/32768057
[7] https://www.heritage.org/the-american-family
[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Make_America_Great_Again
[9] https://observatoriodapaz.org/guine-bissau-institucionaliza-o-dialogo-inter-religioso-com-o-lancamento-do-forum-de-lideres-religiosos-e-do-livro-vozes-pela-paz/
[10] https://www.publico.pt/2026/03/12/opiniao/opiniao/orville-albatroz-discurso-erradicacao-regresso-imperialismo-2167553
[11] https://www.publico.pt/2025/10/20/sociedade/noticia/lei-proibe-uso-burqa-inconstitucional-associacao-mulheres-juristas-2151496
[12] https://www.un.org/en/observances/anti-islamophobia-day
[13] https://observatoriodapaz.org/o-sahel-em-2025-opcoes-politicas-discurso-do-diretor-de-africa-da-chatham-house/