Há muito, muito tempo atrás, um homem chamado Don Ramón entrou pela floresta adentro com os seus instrumentos de madeireiro e começou a derrubar árvores e a caçar tudo o se movia à sua frente. Os seus amigos, que também eram caçadores, avisaram-no: “Respeita La Madremonte, ou ela castigar-te-á”. Ramón riu. Que ideia tonta e infantil! Uma noite, ao derrubar uma árvore centenária, Don Ramón ouve um assobio assustador e enregelante. A floresta estava hiperativa, todos os galhos e plantas se mexiam ao seu redor. Eis que, finalmente, soa uma voz profunda que lhe diz: “Porque destróis a minha casa?” Ramón depara-se perante La Madremonte de pé, com os seus olhos brilhantes. Os seus cabelos prolongavam-se como raízes profundas enroscadas nos seus próprios pés[1].

Esta lenda de La Madremonte é contada às crianças na região de Caquetá, retratando uma figura misteriosa que representa a proteção das florestas e da biodiversidade. A presença de La Madremonte na mitologia colombiana remonta a tempos antigos, está enraizada nas tradições indígenas que vão sendo passadas de geração em geração. Esta personagem feminina, muitas vezes representada como uma mulher robusta e altiva coberta de folhagens, encarna a vital importância da natureza na cultura da Colômbia[2].

O Dia Internacional das Florestas, celebrado a 21 de março, foi proclamado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas em 2012 para celebrar a importância de todos os tipos de florestas. Em 2026, o lema “Florestas e economias” pretende destacar o papel fundamental das florestas na promoção da prosperidade económica. Este contributo ultrapassa a geração de rendimentos e empregos ligados à produção florestal e ao comércio de matérias-primas renováveis e alimentos: as florestas sustentam também a agricultura familiar e comunitária, aumentam a produtividade agrícola e protegem as bacias hidrográficas[3].

As florestas são, assim, indispensáveis para economias resilientes e saudáveis, tanto para as gerações atuais como para as futuras, reforçando a necessidade de as proteger, restaurar e valorizar como pilares do desenvolvimento sustentável global.

«Claudia sente-se realizada. Está feliz pela beleza da sua terra. Pelas suas conquistas, pelas suas lutas. “Não trocaria o campo por nada, aqui temos tudo”, ouvimo-la dizer, sempre que avança rapidamente na sua canoa rio acima, em direção a Solano. Está a caminho de casa com a convicção reforçada. Esteve num encontro com as suas companheiras, a organizar trabalhos em prol da sua comunidade e da proteção ambiental dos seus territórios. Juntamente com elas, reflorestou os bosques, recuperou as águas e os ribeiros e promoveu ações para cultivar as terras de forma respeitosa para com a fauna e a flora que as habitam.», lemos no livro “Mulheres Rurais” editado pela Nuestro Flow S.A.S com o financiamento da atualmente extinta Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID)[4].

O projeto “Resiliência climática, conservação e transição energética na porta de ouro da Amazónia” que abreviamos por Caquetá Eco[5], o qual decorre na Colômbia no norte da região de Caquetá, a mesma região da Claudia e do mito da La Madremonte, visa contribuir para reduzir os efeitos das mudanças climáticas, preservar a biodiversidade e restaurar os ecossistemas, através do fortalecimento de práticas sustentáveis de produção, energia verde e agregação de valor para empoderamento das comunidades locais.

A intervenção contribui para as metas 15.1, 15.2 e 15.9 do ODS 15 – Proteger, restaurar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, travar e reverter a degradação dos solos e travar a perda de biodiversidade, já que visa reduzir os efeitos das mudanças climáticas, preservar a biodiversidade e restaurar os ecossistemas terrestres amazónicos.

A região (departamento) de Caquetá é popularmente conhecida como a porta dourada da Amazónia, a fronteira entre os ecossistemas de sopé da Cordilheira Oriental e a selva amazónica, com importantes determinantes ambientais que centram a necessidade de atenção nas questões do desenvolvimento rural que mitiguem os impactos das economias lícitas e ilícitas que depredam o ambiente. Por conseguinte, o desenvolvimento de estratégias de produção sustentáveis que estimulem a integração da agrofloresta e proporcionem os meios de subsistência à população local são estratégias fundamentais para o território.

Caquetá, no sul da Colômbia (88.965 km²), integra a Grande Bacia Amazónica, albergando a megabiodiversidade e os ecossistemas únicos como a savana do Yarí. A sua economia assenta na pecuária bovina e na agricultura diversificada: cacau, café, borracha (maior produtor nacional), mandioca e banana. Os rios Caquetá, Caguán e Orteguaza constituem um sistema hídrico estratégico. A região enfrenta desafios ambientais como a desflorestação e os cultivos ilícitos. As iniciativas locais, incluindo o protagonismo de mulheres rurais na conservação de sementes nativas e gestão sustentável, demonstram os caminhos para conciliar a produção agropecuária com a preservação da floresta amazónica e o bem-estar comunitário.

A Colômbia renovou, em março de 2026, a Declaração Conjunta de Intenção para a proteção dos bosques[6], juntamente com a Alemanha, Noruega e o Reino Unido. Assinada pela Ministra do Ambiente, Irene Vélez, esta terceira fase da aliança estende-se até 2030 e visa fortalecer a ação climática, a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável. Entre 2022 e 2024, a Colômbia registou as taxas de desflorestação mais baixas desde o início da monitorização oficial, com uma redução superior a 30% face a 2021.

Importa, por conseguinte, continuar a priorizar a restauração ecológica, as economias de biodiversidade e as cadeias produtivas livres de desflorestação. É nesta senda que se insere o projeto Caquetá Eco. O projeto apoia diretamente 754 famílias, mais de 3 mil pessoas, principalmente, as organizações de base comunitária: 1. Amupropaz localizada em El Cedro, La Montañita, integra 35 famílias produtoras de plantas aromáticas; 2. Asmucoca sedeada em El Jordán, La Montañita, integra 30 famílias produtoras de canangucha (Mauritia flexuosa; no Brasil é conhecida como buriti[7]); 3. Coombuvipac baseada em Agua Bonita em La Montañita, integra 35 famílias produtoras de frutas e hortícolas; 4. Chocoamazonic em El Doncello, integra 50 famílias produtoras de cacau, 5. Comcap em El Doncello e em Paujil, integra 40 famílias produtoras de cacau.

O projeto implementou um modelo de ordenamento territorial das explorações agrícolas (fazendas) como estratégia de adaptação às alterações climáticas, à preservação da biodiversidade e à restauração de ecossistemas. Fê-lo através do desenvolver de alianças com os atores da sociedade civil e as autoridades locais. Isso permitiu que atualmente 184,75 ha de áreas de cultivo estejam em restauração passiva. Estão em implementação 198 planos territoriais, com inventário de plantas e um plano de investimento por propriedade para diversificação produtiva, abrangendo 200 produtores (dos quais 50% são mulheres). Atualmente 160 pessoas aumentaram os seus conhecimentos técnicos sobre a cultura ambiental e a agricultura sustentável. Até ao presente, 95% dos produtores assinaram acordos de conservação, totalizando 596 ha preservados.

Paralelamente, o projeto interveio na implementação de planos de investimento participativos para integração de energias renováveis nas unidades de transformação, bem como na elaboração e adoção de modelos de negócio mais sustentáveis para as unidades de transformação, de modo a conferir maior resiliência climática e económica.

Duas unidades de transformação lideradas por mulheres “firmantes de paz”[8], uma designação jurídica e social específica na Colômbia, que refere os ex-combatentes das FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo) que subscreveram o Acordo Final de Paz[9], assinado em novembro de 2016 entre o Governo colombiano e esta guerrilha, já foram equipadas com centrais fotovoltaicas:  a Choco-Amazonic[10], unidade de fabrico de chocolate; e a Asmupropaz –  Associação de Mulheres Produtoras da Paz[11], unidade de fabrico de óleos essenciais.

“Este é um sonho que há anos víamos como longínquo” referiu Gina Bailón Liscano, a representante da Choco-Amazonic aquando da inauguração em outubro 2025. “Hoje, conseguimos alcançá-lo graças ao apoio de muitos parceiros, porque acreditamos em quem somos: mulheres capazes de transformar Caquetá.”

O parque fotovoltaico permite que as fábricas operem a 100% a partir de uma fonte limpa e renovável, reduzindo os custos de produção, numa região onde a energia elétrica é cara e sofre cortes com regularidade. Agora pretendem assinar acordos de venda do excedente energético à rede pública, estando, por conseguinte, em negociação com a empresa ElectroCaquetá[12].

“Com a energia solar, a nossa unidade deixou de depender do gasóleo e agora podemos processar óleos essenciais de forma limpa e constante. Para nós, mulheres camponesas e signatárias da paz, isto representa autonomia, sustentabilidade e um passo firme em direção à reconciliação produtiva com o território”, disse Betsy Ruiz (Sandra González Sanabria), presidente da ASMUPROPAZ na cerimónia de inauguração.

Um grupo de turistas registou, em vídeo, a visita de um jaguar (panthera onca) ao Parque Nacional Natural El Tuparro, em Vichada, na Colômbia[13]. Este avistamento é um indicador positivo da saúde ecológica do parque, pois os jaguares habitam somente nos territórios conservados, e com recursos da sua cadeia alimentar disponíveis. O felino, o maior das Américas, está classificado como “quase ameaçado” pela IUCN (International Union for Conservation of Nature), tendo desaparecido de 46% do seu território original. As principais ameaças incluem a perda e a degradação de habitats, os conflitos com humanos e o tráfico. A presença da espécie no parque confirma a eficácia das medidas de proteção ambiental e a importância da conservação dos ecossistemas da Orinoquia para a biodiversidade. O jaguar é também um dos símbolos da região de Caquetá.

Com um gesto, La Madremonte transformou o Don Ramón num macaco-de-cheiro-comum[14], condenado a viver nas árvores e a entender a dor dos animais.

Na arte popular colombiana, a La Madremonte tem sido representada em pinturas, esculturas, canções, poemas, contos e peças de teatro, como uma lenda que nos interpela para o profundo respeito que devemos ter pela mãe natureza e pelas consequências de não a ouvirmos[15]. Estas representam pouco mais de um terço da área terrestre habitável, correspondente a cerca de um quarto da área terrestre total (tanto habitável como inabitável)[16].

A preservação da floresta amazónica é vital para a estabilidade climática global. Funciona como um armazém de carbono crucial, retendo milhões de toneladas que, se libertadas, acelerariam drasticamente o aquecimento global.

Além disso, regula o ciclo hidrológico através dos “rios voadores”, distribuindo humidade essencial para a agricultura em toda a América do Sul. A sua megabiodiversidade constitui um reservatório genético insubstituível para a medicina e para a segurança alimentar. Os estudos do IPCC[17] alertam que a desflorestação excessiva pode levar a um ponto de não retorno, transformando a selva em savana. Protegê-la é garantir os serviços ecossistémicos fundamentais para a sobrevivência humana e para o equilíbrio do planeta.

O projeto Caquetá ECO, é financiado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Rede Nacional de Agências de Desenvolvimento Local da Colômbia – Red Adelco, reafirmando o seu compromisso com a implementação de soluções inovadoras que promovam territórios sustentáveis, competitivos e em paz.

[1] https://www.historiasqueminhaavocontava.com/2025/06/17/la-madremonte/

[2] https://folkfiesta.net/pt/post/madremonte-guardiana-natureza-colombiana/

[3] https://www.fao.org/international-day-of-forests/en

[4] FONDO ACCIÓN. Seis historias sobre el poder transformador femenino. Bogotá: Fondo Acción, 2020. ISBN 978-958-52777-9-3.

[5] https://www.imvf.org/project/caqueta-eco-territorios-economica/

[6] https://www.elespectador.com/ambiente/bibo/colombia-renovo-la-declaracion-conjunta-de-intencion-para-la-proteccion-de-los-bosques/

[7] https://www.jardineiro.net/plantas/buriti-mauritia-flexuosa.html

[8] https://www.reincorporacion.gov.co/es/sala-de-prensa/noticias/Paginas/2025/Firmantes-paz-comunidades-apuestan-reconciliacion-todo-pais.aspx

[9] https://www.unav.edu/web/global-affairs/detalle/-/blogs/acuerdo-de-paz-en-colombia-la-nueva-presidencia

[10] https://www.imvf.org/2025/02/20/a-choco-amazonic-ilumina-o-seu-futuro-com-energia-solar-e-lideranca-feminina/

[11] https://www.imvf.org/2025/10/21/inauguracao-do-sistema-de-energia-solar-na-fabrica-de-cosmeticos-naturais-da-asmupropaz-em-caqueta-colombia/

[12] https://www.electrocaqueta.com.co/

[13] https://www.elespectador.com/ambiente/bibo/en-video-quedo-registrada-la-visita-de-un-jaguar-en-el-pnn-el-tuparro/

[14] https://pt.wikipedia.org/wiki/Macaco-de-cheiro-comum

[15] https://www.culturagenial.com/es/la-madremonte/

[16] https://ourworldindata.org/forest-area

[17] https://www.ipcc.ch/

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