
Catarina Arruda, Betsy Ruiz e Carolina Quina assinalam a inauguração do Parque Fotovoltaico
Parasole a proteger a incidência solar nos olhos. T-shirt branca com a inscrição: soy constructora de paz | soy sujeta política | soy historia de resistência. Betsy, nome de guerra, assegurava-se que tudo estava listo (pronto) para receber a Embaixadora de Portugal na Colômbia, Catarina Arruda.
A distância de Florencia a Agua Bonita, no Município de La Montañita (24 mil habitantes), não se afere em quilómetros, 41, mas no cálculo do tempo necessário para percorrer a distância; uma hora separa a capital do Departamento de Caquetá (485 mil habitantes) no sul da Colômbia (54 milhões de habitantes), da sede da Cooperativa Multiactiva para el Buen Vivir y la Paz del Caquetá (COOMBUVIPAC).
Um Toyota Land Cruiser modelo 300, blindado, de cor cinza, parqueia no perímetro da fábrica da COOMBUVIPAC, onde todos os convidados e membros da comunidade de Agua Bonita aguardavam o início da cerimónia de inauguração do parque fotovoltaico que alimenta a fábrica de produção de polpa de fruta no dia 25 de março de 2026. Uma lona proporcionava ensombramento contra os 27º que pareciam 35º graça aos 94% de humidade.
Um projeto centrado no humanismo das suas comunidades
No Hotel Caquetá Real em Florencia, onde estava instalada a Embaixadora de Portugal, em representação do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., financiador principal do projeto, através do PROGEA – Programa Plurianual Conjunto de Cooperação para o Desenvolvimento nos Domínios do Ambiente e da Ação Climática (2030), junto com a Delegação do IMVF e da Red Adelco, implementadores do projeto, lia-se na bíblia aberta no lóbi de entrada o texto de Salmo 119 – “A minha alma consome-se de tristeza; fortalece-me, como prometeste”. 70% dos colombianos professam o catolicismo romano, embora apenas 25% seja praticante, e foi essa a tristeza observada no cumprimento de um minuto de silêncio pelos 69 mortos do trágico acidente aéreo do avião das forças armadas colombianas, um Hercules C-130, ocorrido em Puerto Leguízamo, Putumayo, no dia 24 de março, no país que ocupa o 3.º lugar na lista de países sul-americanos com mais acidentes de aviação (atrás do Brasil e da Argentina).
La humanidad entera | Que entre cadenas gime | Comprende las palabras | Del que murió en la cruz – cantaram os presentes, em uníssono, apoiados pela projeção do vídeo numa televisão LCD de 55 polegadas: o hino nacional da Colômbia. Seria o primeiro de quatro hinos nacionais, regional e local. Depois de um “coro” vozes colombianas, ouvem-se também algumas a cantar “A Portuguesa”. Introduzidos protocolarmente os dois países, segue-se a região: “Caquetá, progreso y bienestar”, o hino do Departamento que partilha o nome com um rio de 2.200 km, dos quais 1.200 transcorrem o país.
Da região, ao município, uma marcha alegre acompanhada pelas imagens das belas paisagens do Município de La Montañita, escutamos: De mil hachas sangrientas de esfuerzos | Con semillas de paz y de honor (De mil machados sangrentos de esforços | Com sementes de paz e honra).
A anfitriã, Sandra González (Betsy), representante legal da COOMBUVIPAC, com a coragem e a sabiduria ancestral que vemos pintada num espaço comercial associativo na aldeia Agua Bonita, não teme fazer referência aos “mil machados sangrentos”, que desde 2016 foram tornados “sementes de paz e honra”. Como “firmantes de paz” (ex-combatentes das FARC-EP que subscreveram o Acordo Final de Paz, assinado em novembro de 2016 entre o Governo colombiano e esta guerrilha), Betsy explica a importância desta fábrica para a reintegração destas comunidades estigmatizadas pelo seu passado, inclusive no acesso a emprego.

“A sustentabilidade ambiental é o que a Amazónia tem de promover.” Betsy Ruiz, COOMBUVIPAC
Betsy explica que “a guerra nos humanizou, tornámo-nos uma família” na selva. Como enfermeira comunitária tinha de cuidar dos desafios sanitários que surgiam apenas com os meios ao dispor na grande bacia amazónica, reserva mundial de megabiodiversidade de importância global e de interesse para a humanidade.
Isso despertou a sua aptidão pela homeopatia e pelo “buen vivir”, que designa a cooperativa. As 35 famílias de Água Bonita, produtoras de frutas e hortícolas, reuniram-se num movimento associativo que lhes trouxesse paz, emprego, rendimento e esperança. Não foi produto de um dia, não foi produto de um projeto, não foi apenas diálogo pela paz, foi investimento estruturante, formação, capacitação, criação de redes e ligações estratégicas num compromisso que demonstra que a cooperação para o desenvolvimento continua a ser fundamental para tornar o mundo um local melhor para todos e todas, onde Portugal e a União Europeia tiveram um papel relevante.
Betsy reconheceu que “o apoio do Governo Português esteve presente desde o momento zero, neste povoado, uma cooperação internacional que é comprometida com o nosso futuro e com a construção de processos e a transformação das realidades.”
Segundo Betsy, “a modernização da fábrica de processamento de polpas de fruta, designadamente ananás, através do parque fotovoltaico, criou empregos locais e gerou rendimentos para 55 mulheres.” Pode processar 700 kg de fruta, 100% natural (sem conservantes), para vender inclusive às escolas: ananás; ananás-laranja (piñanaranja, combinação de frutas), maracujá, lulo (naranjilla), guanábana e uva. Têm um contrato de fornecimento no quadro do Programa de Alimentação Escolar – PAE, para entregar frutas processadas pelas 4 funcionárias permanentes da fábrica, às quais acrescem as 3 vendedoras e os 3 técnicos agrícolas que se ocupam da produção. Postos de trabalho numa comunidade cujas inscrições grafitadas nas paredes assinalam as marcas do conflito e o caminho pela paz e coesão social: firmes por la paz; las comuneiras – mujeres caminhando território.
“A comunidade de Agua Bonita sabe que a paz pode funcionar se o Estado a fizer cumprir nestes territórios”, disse Betsy, referindo que “querem a igualdade no meio das disputas armadas: desde 2016, 44 assinantes da paz foram assassinadas em Caquetá”.
Segundo Betsy, as associadas da cooperativa agradecem ao Camões, I.P., e ao Governo Português, representado pela Embaixadora no país, pela “esperança que trouxeram a esta comunidade: ajudaram na construção coletiva da paz e reconciliação”.
Empreendedorismo como motor da reconciliação
O presidente da cooperativa, Carlos Arturo Vargas, explicou que a mesma nasceu na sequência do acordo de paz. O primeiro projeto foi de produção de ananás e maracujá, entre outras frutas.
Betsy explica que, por viverem no meio rural, sempre encontraram muitas barreiras. Depois de montada a fábrica de processamento de frutas, tinham um custo de 2.7 milhões (632€) a 4 milhões de pesos colombianos (936€) em custos energéticos, o que não impedia a perda ocasional de fruta por causa das quebras da rede elétrica durante dois ou três dias seguidos.
O projeto Caquetá Eco – Resiliência climática, conservação e transição energética na porta de ouro da Amazónia, com vista a mitigar os efeitos das mudanças climáticas, preservar a biodiversidade e restaurar os ecossistemas, através do fortalecimento de práticas sustentáveis de produção, energia verde e agregação de valor para empoderamento das comunidades locais, ao encontro do ODS 15, apoiou esta unidade de produção de polpas com a instalação de um sistema fotovoltaico com 26 novos painéis solares e 7 baterias para armazenamento de energia, num total de 52 painéis instalados (26 painéis anteriores).
Ao disporem de um sistema de energia verde baixaram os custos energéticos para 120 mil pesos (COP) por mês (28€), através da venda do excedente à empresa pública Electrocaquetá.
Para Betsy, “a sustentabilidade ambiental é o que a Amazónia tem de promover. Transformamos os frutos da nossa terra e acreditamos na paz coletiva e no bem viver”. Segundo esta mulher, cujo rosto brilha numa combinação de alegria e emoção, “tudo é esforço do nosso trabalho: é a nossa Esperança num futuro mais justo”.
A Embaixadora referiu que Portugal permanece firme no seu “compromisso com a paz e a justiça ambiental na Colômbia”.
“Portugal continua focado em manter viva a esperança, a paz e a contribuir para a justiça ambiental”, disse a diplomata Catarina Arruda. “Queremos que sigam com esperança, com alma e com trabalho”. “Seguimos comprometidos com a paz na Colômbia. Vocês merecem a paz” – concluiu a Senhora Embaixadora.
Para Carolina Quina, administradora do IMVF, “este trabalho, mais do que painéis solares, demonstra a reintegração efetiva, pós-conflito, de todas as famílias”. Para Quina “a presença da Embaixadora portuguesa tem um significado muito especial, significa que o apoio de Portugal ao processo de paz e à reintegração funciona, mas significa também o próprio empenho pessoal da Embaixadora em estar aqui connosco”.
Paola Ortega, subdiretora administrativa da Red Adelco, parceiro local, reconhece que “o desenvolvimento territorial se constrói passo a passo, com visão e com as comunidades”. “Queremos criar novas oportunidades para todos”, asseverou.
De acordo com Ortega “a fábrica de transformação de polpas de fruta, ao incorporar tecnologias limpas, reduziu os custos operacionais e aumentou a geração de rendimento”. Isso permite obter “receitas na revenda de energia à rede pública”, logo “as meninas, os meninos, as jovens, as mulheres, os maridos, que trabalham pela paz e pela sua autonomia financeira, têm uma oportunidade sustentável”.
Na visita às instalações, os participantes foram devidamente equipados com EPIS – equipamentos de proteção individual (toucas, máscara), higienização do calçado, para não constrangerem a higiene alimentar dos produtos finais.
Como demonstra o filme “O Pub The Old Oak”, de 2023 – When you eat together you stick together (Quando comemos juntos, permanecemos juntos), assim o evento terminou ao redor de uma mesa preparada pela comunidade local com apoio do projeto, numa demonstração de união consciente dos desafios remanescentes nos caminhos da paz, com foco na defesa de um habitat maravilhoso que permanece ameaçado.
O bem já está a germinar / O bem já está a germinar, lemos no refrão do hino nacional colombiano. E como lemos no grafite numa padaria local: la dignidad de un pueblo no se negocia.











