Evento no Centro Cultural Português reúne 89 jovens e lança a Carta da Juventude pela Paz com oito compromissos concretos

No passado dia 28 de março de 2026, o Centro Cultural Português transformou-se num palco de esperança para a Guiné-Bissau. A iniciativa “Djumbai di Paz — Juventude Guineense ku Djuntu pa Paz“, organizada pela Juventude Guineense pelos Direitos Humanos (JGPDH), reuniu 89 jovens, incluindo 36 raparigas, provenientes de organizações juvenis e do meio universitário.

Mais do que um evento simbólico, o encontro marcou o lançamento da Carta da Juventude pela Paz, documento que estrutura oito compromissos concretos para prevenir conflitos, combater o discurso de ódio e promover a coesão social num país marcado por desafios institucionais.

Contexto de fragilidade institucional

A Guiné-Bissau enfrenta uma profunda crise institucional que tem fragilizado o tecido social e alimentado discursos de ódio, colocando em risco a coesão nacional e a estabilidade do país. Foi neste cenário que Bubacar Turé, Presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) e Coordenador do projeto Observatório da Paz — Nô Cudji Paz, dirigiu um apelo claro e firme à juventude durante a cerimónia de abertura.

Assumam, sem hesitação, o vosso papel como protagonistas na promoção de uma cultura de paz“, declarou Turé, alertando simultaneamente para os perigos do radicalismo e do extremismo violento. A sua intervenção sublinhou que a paz não pode ser deixada apenas nas mãos das instituições formais, exige a participação ativa de todos os sectores da sociedade, particularmente dos mais jovens.

A paz é a justiça que constrói o futuro

Silvino Manuel António, Presidente da Juventude Guineense pelos Direitos Humanos, trouxe uma visão mobilizadora sobre o verdadeiro significado da paz. Para si, “a paz social não é apenas o silêncio das armas, é a presença viva da justiçaÉ o alicerce sobre o qual se constrói o futuro.”

António ilustrou o seu ponto com exemplos concretos: “É ver um jovem de Gabú e outro de Bafatá lado a lado, a estudar, a sonhar e a construir juntos, transformando as suas diferenças em riqueza. É saber que o mérito, e não a etnia ou o apelido, abre caminhos. É garantir que as mulheres e as meninas vivem com liberdade, dignidade e respeito.”

O conceito de djumbai, diálogo, foi apresentado como o caminho fundamental para resolver os conflitos, sempre, e nunca o contrário. A sua intervenção ecoou como um verdadeiro chamado à ação, reforçando que a paz exige compromisso, coragem e responsabilidade coletiva.

A Carta da Juventude pela Paz: Oito Compromissos Concretos

O ponto alto da iniciativa foi a apresentação, assinatura e lançamento da Carta da Juventude pela Paz, acompanhada da campanha “Juventude ku Djuntu pa Paz”. Este documento representa um compromisso concreto e coletivo da juventude guineense, estruturado em oito eixos fundamentais:

Eixo Compromisso
1 Responsabilidade digital e combate ao discurso de ódio online
2 Valorização da verdade e da memória
3 Promoção da unidade na diversidade étnica e cultural
4 Igualdade de género e combate à violência contra as mulheres
5 Justiça social, trabalho digno e acesso à terra
6 Tolerância religiosa e respeito pela diversidade de crenças
7 Criação de clubes da paz como espaços de mobilização e ação
8 Exigência de responsabilidade política e institucional

 

Mais do que uma declaração de intenções, esta Carta afirma-se como um instrumento de compromisso e de ação, reflete a determinação da juventude em assumir um papel ativo na transformação da realidade nacional.

Jovens ativos pela paz e PREV

A forte adesão dos jovens, aliada à profundidade e qualidade dos debates, confirma que a juventude guineense está preparada e disposta a liderar os processos de mudança. O Djumbai di Paz demonstrou que, quando devidamente mobilizados e apoiados, os jovens são capazes de construir pontes, propor soluções e inspirar novos caminhos para o país. Ao longo do dia, os participantes foram desafiados a refletir, questionar e propor soluções concretas para os desafios que afetam o país.

A programação integrou painéis temáticos e debates dinâmicos que abordaram questões centrais para a estabilidade nacional, como o combate ao discurso de ódio, a prevenção do radicalismo e extremismo violento (PREV). Foram igualmente exploradas estratégias práticas de mediação, prevenção e resolução de conflitos, com forte enfoque na ação comunitária. Destacaram-se ainda sessões dedicadas à prevenção e combate à violência baseada no género, reforçando a urgência de proteger os direitos das mulheres e meninas e de promover uma cultura de igualdade e respeito.

Um dos momentos mais marcantes foi a mesa-redonda sobre o diálogo inter-religioso e interétnico, que evidenciou o enorme potencial da diversidade como fator de união e não de divisão. Este espaço permitiu reforçar a importância do respeito mútuo, da tolerância e da convivência pacífica como pilares fundamentais para a construção de uma sociedade inclusiva.

Num contexto marcado por desafios complexos, iniciativas como esta revelam-se essenciais para fortalecer a democracia, promover a coesão social e consolidar uma cultura de paz. A mensagem é clara: a paz não se constrói apenas com discursos — constrói-se com ação, compromisso e participação ativa. E a juventude está pronta para assumir esse desafio.

Parcerias Estratégicas

A iniciativa contou com o apoio do projeto Observatório da Paz — Nô Cudji Paz, financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões — Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., sendo implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela LGDH.

O projeto assume-se como uma plataforma estratégica para promover o diálogo, fortalecer as redes de colaboração e promover parcerias capazes de prevenir a radicalização e o extremismo violento no país. A presença de entidades como o Camões e a UE sinaliza o reconhecimento internacional da importância do investimento na juventude guineense como factor de estabilidade regional.

 

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