Em 2016, o Governo da Colômbia e as FARC-EP, a principal guerrilha, enterraram o machado de guerra e assinaram um tratado de paz. Muito mais do que depor as armas, o processo envolvia inserir combatentes na sociedade e nas estruturas produtivas e substituir o cultivo da coca por culturas legais e sustentáveis. O Instituto Marquês de Valle Flôr tem estado na linha da frente deste combate pela paz.

FAZ esta segunda-feira dez anos que Havana foi a capital mundial da esperança. Vestidos com camisas brancas e com sorrisos no rosto, representantes do Governo da Colômbia e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) trocaram cumprimentos e anunciaram a obtenção de um “acordo final, integral e definitivo” para a guerra civil na Colômbia que levava 52 anos.

Mediado por Noruega e Cuba, o processo revelar-se-ia sinuoso até que a paz definitiva fosse efetivamente assinada. A 27 de setembro, em Cartagena das Índias, o Presidente Juan Manuel Santos e o líder das FARC-EP, Rodrigo Londoño (nome de guerra: “Timochenko”), assinaram o que parecia ser o acordo final.

Mas cinco dias depois, levado a referendo — com a pergunta: “Apoia o acordo final para pôr fim ao conflito e a construção de uma paz estável e duradoura?” —, o povo preferiu o “não”, que venceu por escassos 0,44% dos quase 13 milhões de votos expressos.

A falta de adesão popular à paz negociada colocou uma nuvem negra sobre o futuro da Colômbia. Mas a 7 de outubro, cinco dias após o plebiscito, o anúncio da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Juan Manuel Santos (ainda que não a “Timochenko”) tornou a paz um caminho irreversível.

As partes voltaram à mesa do diálogo e, a 24 de novembro de 2016, no Teatro Colón, em Bogotá, Juan Manuel Santos e Rodrigo Londoño rubricaram uma versão revista do acordo anterior, que o povo rejeitara.

No terreno, havia todo um país para recuperar, vergado por décadas de violência que traumatizou a sociedade no fogo cruzado entre rebeldes, forças do Estado, grupos paramilitares e redes criminosas. Ainda hoje, mais de sete milhões de colombianos são deslocados internos e há dezenas de milhares de desaparecidos.

Neste contexto, as zonas rurais, pelas suas fragilidades históricas que contribuíram para o aparecimento das FARC-EP, nos anos 1960, tornaram-se uma prioridade. Experiências passadas em cenários de pós-conflito, designadamente na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe, motivaram o Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) a interessar-se pelo caso colombiano.

“Começámos a acompanhar mais de perto as negociações do processo de paz da Colômbia a partir de 2013. Realizámos a primeira missão ao país cerca de três semanas antes da assinatura do acordo de paz. A experiência anterior do IMVF em processos de paz e situações de pós-conflito foi-nos útil para ponderarmos a nossa atuação no país”, diz ao Expresso Carolina Quina, administradora executiva desta organização não-governamental para o desenvolvimento, fundada em 1951 e sediada em Lisboa.

Cada missão exploratória do IMVF envolveu um diálogo abrangente. “Sentámo-nos à mesa com as comunidades rurais historicamente marginalizadas, designadamente os firmantes de la paz [os ex-combatentes] e também com o Exército. Recordo o apoio fundamental do general César Parra, então comandante da 6ª Divisão. Naquela selva, onde a insegurança fora dos centros urbanos era uma realidade diária, sem a garantia de segurança por parte das forças armadas, nenhum projeto de desenvolvimento poderia sequer começar a respirar.”

No terreno, o IMVF identificou “um parceiro local sério e sólido”, a Red Adelco — Rede Nacional de Agências de Desenvolvimento Local da Colômbia, que atua mediante uma filosofia de trabalho própria. “Em vez de impor projetos de cima para baixo, a Red Adelco trabalha com os próprios territórios para identificar os seus recursos, atividades económicas e problemas e, a partir daí, criar oportunidades económicas sustentáveis”, lê-se no site da organização.

“A nossa parceria com a Red Adelco e a opção estratégica de termos as nossas equipas constituídas maioritariamente por quadros nacionais colombianos foi o que nos deu legitimidade”, enfatiza João Monteiro, coordenador de projetos do IMVF. “A assistência técnica de especialistas portugueses e a colaboração científica de peso, como a do Instituto Sinchi [Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas, de Leticia], criaram a base para algo muito mais profundo do que a ajuda humanitária: a criação de alternativas económicas sustentáveis. Hoje, o foco está na preservação da Amazónia através da bioeconomia.”

O acordo de paz identificava como pilar de uma paz duradoura uma “Reforma Rural Integral” que atacasse as raízes históricas do conflito: a desigualdade no acesso à terra, a pobreza e a exclusão política das zonas rurais, contextos que incentivaram a mobilização armada e alimentaram a guerra.

O compromisso previa uma intervenção sobre dez milhões de hectares — uma área superior ao território de Portugal Continental — com a criação de um Fundo de Terras, com três milhões de hectares para serem distribuídos gratuitamente a camponeses sem terra ou com terra insuficiente. Apelava também à formalização da posse de sete milhões de hectares de pequenas e médias propriedades, para que camponeses que as ocupavam passassem a ter direitos de propriedade reconhecidos.

ALTERNATIVAS À COCA

Mais do que dar terras aos camponeses, o objetivo era transformar o campo colombiano e tornar uma reforma agrária um instrumento de construção de comunidades reconciliadas e pacificadas. Mais do que uma questão económica, a terra tornou-se uma questão de justiça e segurança.

No seu ponto 4, o acordo de paz apontava a substituição do cultivo da coca por cultivos alternativos como forma não apenas de erradicar uma fonte de financiamento do narcotráfico e da guerra, mas também criar oportunidades produtivas legais e sustentáveis para os agricultores.

Os dois projetos que o IMVF desenvolveu no Departamento de Caquetá (sul da Colômbia), o coração da Amazónia colombiana e um dos epicentros do conflito com aproximadamente a área de Portugal, inseriram-se nesse espírito.

O primeiro, financiado pelo Fundo Fiduciário da União Europeia para a Paz na Colômbia e cofinanciado pelo Instituto Camões, decorreu entre janeiro de 2018 e junho de 2022. Designado “Territórios Sustentáveis para a Paz em Caquetá”, desenvolveu-se nos municípios de La Montañita e El Paujil e passou pela construção de quatro fábricas de transformação de produtos locais.

A Asmupropaz integra 35 famílias produtoras de plantas aromáticas; a Asmucoca apoia 30 famílias produtoras de canangucha (um fruto amazónico que no Brasil se designa buriti); a Coombuvipac, uma associação de antigos guerrilheiros que colhe fruta e a transforma em polpa, beneficiando 35 famílias; e a Chocoamazonic, que se dedica à transformação de cacau amazónico, envolve 50 famílias.

“Num território historicamente dominado pela economia ilícita do narcotráfico e pela violência, optámos por fortalecer fileiras agrícolas alternativas e sustentáveis”, diz Carolina Quina.

Catarina Arruda, Betsy Ruiz e Carolina Quina assinalam a inauguração do Parque Fotovoltaico

“Estamos a oferecer a um ex-combatente das FARC ou a um agricultor marginalizado a oportunidade de reinserção económica, provando que a floresta em pé vale mais do que a floresta derrubada ou transformada em laboratório de ilícitos”, acrescenta João Monteiro.

O PESO DA CONTA DA LUZ

Um segundo projeto do IMVF, designado “Caquetá Eco – Territórios Económica e Ecologicamente Sustentáveis”, arrancou no início de 2024, nos municípios de La Montañita, El Doncello e El Paujil.

“Quando o primeiro projeto terminou, percebeu-se que era necessário haver uma consolidação e também um salto qualitativo nas quatro unidades produtivas ao nível da melhoria da qualidade do chocolate produzido, por exemplo, e das conexões para os circuitos de venda”, refere Carolina Quina.

O projeto procurou dar resposta também a desafios ambientais como a desflorestação, agravada pela competição por territórios e pela pecuária extensiva, durante os anos da guerra.

“O projeto implementou um modelo de ordenamento territorial das explorações agrícolas, como estratégia de adaptação às alterações climáticas, à preservação da biodiversidade e à restauração de ecossistemas. Isso permitiu que atualmente 184,75 hectares de áreas de cultivo estejam em restauração passiva”, exemplifica a responsável.

“As quatro unidades de transformação foram também apoiadas com a instalação de parques fotovoltaicos que passou a assegurar um fluxo de energia permanente, permitindo baixar substancialmente os custos de produção”, acrescentou. “Uma das questões que pesava muito sobre as fábricas era a fatura da energia. Apesar de haver vendas, os custos da energia consumiam praticamente tudo.”

Nestes projetos, o IMVF coloca ao serviço “a sua experiência em cadeias de valor de exportação e as melhores práticas na gestão de subvenções internacionais”, diz Carolina Quina.

A Red Adelco complementa com “o conhecimento profundo e ancestral das comunidades locais”. “Agrega o saber acumulado ao longo de anos de atuação em várias regiões do país, o conhecimento das especificidades locais, a compreensão das dimensões mais profundas do sentimento das comunidades abrangidas”, acrescenta.

As partes reúnem-se às quartas-feiras. “Temos uma reunião semanal de coordenação com a equipa dos quadros que estão na sede da associação, em Bogotá, e com os técnicos que contratamos localmente, em Florencia [capital de Caquetá], e connosco em Lisboa. Os técnicos de Bogotá visitam regularmente a região de Caquetá. E nós também, pelo menos duas vezes por ano.”

O projeto atualmente em funcionamento termina a 30 de setembro próximo. A 2 de junho, uma delegação de representantes das quatro fábricas de Caquetá e da Red Adelco participou no Fórum Internacional “Amazónia e Biodiversidade: Energia Verde, Desenvolvimento Sustentável e Paz na Amazónia Colombiana”, que se realizou na Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, em Lisboa.

“Este evento inseriu-se no quadro de uma missão empresarial a Portugal à procura de novos mercados, bem como aprendizagens para melhorar os negócios das quatro associações”, diz Carolina Quina. No Fórum, mulheres colombianas partilharam as suas histórias pessoais de resiliência e mudança e deram a provar e a cheirar cacau, canangucha, canela ou manjericão, produzidos em terras outrora tomadas pelo cultivo da coca e pela guerra.

“Esta missão empresarial a Portugal permitiu perceber que existe interesse e procura, nomeadamente para o cacau colombiano”, conclui a administradora executiva do IMVF. “Ainda ontem [20 de agosto], em Caquetá, foi inaugurada a primeira loja comunitária. Está sediada numa das unidades de produção, a Asmucoca, mas vai vender produtos de todas as outras. A mensagem que recebemos de lá foi muito emotiva: ‘Não nos deixem, não se esqueçam de nós’”.

Por Margarida Mota | Jornalista do Expresso

Artigo completo no site do Expresso

24 Agosto 2026 | 18:13

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