Arouca inaugurou, a 3 de outubro, a Floresta Ativista, uma atividade que reuniu cerca de 40 pessoas num primeiro momento de um percurso que pretende chegar a milhares.

Mais do que plantar árvores, a iniciativa pretende lançar sementes de participação, cidadania global e compromisso com o bem comum, mostrando como a mudança pode começar no território e ganhar dimensão muito para além dele.

A inauguração foi um momento de encontro e reflexão sobre ativismo, sustentabilidade, cidadania e participação, mas também sobre a capacidade de cada pessoa contribuir para transformar a comunidade onde vive.

Para Salomé Assunção, vice-presidente da Junta de Freguesia de Moldes, a Floresta Ativista representa uma oportunidade para recordar o legado de mulheres ativistas e, simultaneamente, refletir sobre a responsabilidade de cada pessoa perante aquela que é a nossa Casa Comum. Um convite a “ativar a semente da diferença e da solidariedade” a partir do território, mostrando como ações concretas de cidadania global podem produzir impactos muito para além da comunidade onde começam.

Também Cláudia Oliveira, vereadora da Juventude e do Desenvolvimento Educativo e Social da Câmara Municipal de Arouca, destacou a importância de iniciativas enraizadas no território e orientadas para a mudança. Perante desafios sociais e ambientais que são globais, as respostas podem nascer localmente, sem perder de vista uma ambição mais ampla. Ambas salientaram ainda o trabalho desenvolvido pela Associação 4540 na promoção da sustentabilidade e da cidadania global no município.

Para André Vilar, presidente da Associação 4540, a inauguração não representa um ponto de chegada, mas o início de um compromisso. A Floresta Ativista, enquanto experiência singular em Arouca e potencialmente replicável noutras geografias, terá agora de ser acompanhada, cuidada e monitorizada. Um trabalho que só será possível com uma comunidade ativa e envolvida.

É precisamente essa dimensão coletiva que está no centro da iniciativa: sensibilizar para gerar conhecimento, mas sobretudo criar condições para agir. A mudança de comportamentos é um processo gradual e nem sempre fácil, mas faz parte de um percurso de crescimento individual e coletivo.

Ao longo do encontro, Susana Bastos e Balolas Carvalho trouxeram diferentes perspetivas sobre ativismo, ambiente, participação e mudança social. Uma das ideias que atravessou a conversa foi a de que o ativismo não pertence apenas a algumas pessoas. Cada pessoa pode encontrar uma causa que a mobilize, sobretudo quando essa causa está orientada para o bem comum.

A relação entre ação e impacto foi um dos temas centrais da reflexão. Balolas Carvalho chamou a atenção para a necessidade de não medir permanentemente o valor da participação pelos seus resultados imediatos. Perante a dimensão dos desafios atuais, esperar sempre uma transformação rápida pode conduzir à frustração e à desistência. A vontade de participar e transformar deve, por isso, estar ligada a um compromisso mais profundo com a Terra, com as outras pessoas e com as gerações futuras.

Nesta perspetiva, o ativismo está também associado ao amor e à integridade, fazer corresponder as ações às palavras e compreender que mesmo aquilo que hoje parece pequeno pode produzir impacto no futuro e inspirar outras pessoas.

Para Susana Bastos, “o exemplo é contagiante”. A sensibilização ganha força quando existe coerência entre aquilo que se defende e aquilo que se pratica. Os resultados nem sempre são imediatamente visíveis ou alcançam uma grande escala, mas existem sinais que mostram que a mudança está a acontecer.

O trabalho de sensibilização para as espécies invasoras foi apontado como um desses exemplos. Quando alguém procura mais informação porque quer compreender melhor uma determinada espécie ou aprender a controlá-la de forma adequada, existe já uma alteração na forma de olhar para o problema. O mesmo acontece com o conhecimento sobre o papel ecológico das diferentes espécies. Compreender, por exemplo, a função desempenhada pelas cobras no controlo das populações de roedores permite construir uma relação diferente entre as pessoas, a biodiversidade e o território.

O papel das instituições e do associativismo foi outro dos temas em destaque. Para Susana Bastos, a cooperação é fundamental: “seremos mais fortes quanto mais nos associarmos”. A articulação entre coletividades, associações e instituições permite chegar a mais pessoas, partilhar recursos e construir respostas mais sólidas para os desafios existentes. É também através desta capacidade de organização e cooperação que iniciativas locais podem ganhar escala e contribuir para mudanças mais duradouras.

A reflexão abordou igualmente os obstáculos enfrentados por quem procura promover transformações sociais e ambientais. As estruturas políticas, económicas e sociais nem sempre acompanham o ritmo ou a profundidade das mudanças defendidas pelos movimentos de cidadania. Neste contexto, a organização comunitária, a participação e a criação de espaços de diálogo assumem um papel essencial.

Neste sentido, para podermos transformar grandes desafios globais em ações concretas precisamos de entender que a ação local também produz impactos globais. As iniciativas desenvolvidas em Arouca fazem parte de um esforço mais amplo de resposta a desafios partilhados internacionalmente. A Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável recordam precisamente esta interdependência. Os desafios ambientais, sociais e económicos estão ligados e exigem respostas articuladas entre diferentes escalas e diferentes atores.

É no território que muitos desses compromissos se tornam concretos, por exemplo, numa associação, numa escola, numa coletividade, numa floresta ou numa conversa entre pessoas.

A participação juvenil foi também abordada durante o encontro. Existem muitas formas de exercer cidadania, através da participação numa associação, envolvimento numa iniciativa comunitária, apoiar uma causa, procurar informação, sensibilizar outras pessoas ou subscrever e promover petições públicas capazes de contribuir para alterações legislativas e institucionais.

Entre as várias reflexões do encontro ficou ainda uma mensagem central de que o amor pode ser um dos fundamentos do ativismo. Amor pela Terra, pelas pessoas e pelo todo. Um amor entendido como a força necessária para romper o comodismo, assumir responsabilidades e agir perante aquilo que precisa de ser transformado.

A inauguração da Floresta Ativista, cujo percurso pode também ser conhecido através do Roteiro da Floresta Ativista, começou com uma atuação musical de Daniela e terminou com o Canto a Vozes de Mulheres em Arouca, tradicionalmente conhecido como “Botar Cantas”.

Tal como a canção pode ser uma arma contra a indiferença, também a Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global (EDCG) é uma ferramenta para despertar a ação individual e coletiva, orientada para o bem comum e para a justiça social.

A Floresta Ativista terá um segundo momento em novembro, com uma ação de reflorestação que prevê a plantação de 300 árvores.

O Jovens 2030 promove a inclusão, o empoderamento e a participação ativa dos jovens das zonas rurais para a justiça social e a justiça climática. O projeto procura capacitar jovens para atuarem como agentes de mudança nas suas comunidades, enfrentando os desafios globais com as ferramentas necessárias para o desenvolvimento sustentável.

O projeto é cofinanciado pela União Europeia e apoiado pelo Camões, I.P., em Portugal.

 

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