Num programa transmitido pelo Canal TV5 Somos Region, um canal digital de Florência, capital do Departamento de Caquetá, no Sul da Colômbia, emitido a 14 de junho de 2026, Yina Bailón da empresa ChocoAmazonic e Sandra Gonzalez (Betsy) gestora da Asmupropaz – Associação de Mulheres Produtoras da Paz e da Coombuvipac – Cooperativa Multiactiva para el Buen Vivir y la Paz del Caquetá dão testemunho da missão empresarial e intercâmbio a Portugal. Entre os dias 31 de maio e 7 de junho de 2026, uma delegação de cinco colombianos, três líderes de quatro empresas de Caquetá e dois quadros da ONG colombiana Red Adelco deslocou-se a Portugal no âmbito do projeto “Caquetá Eco”.

O cerne da conversa centrou-se na participação destas mulheres, descritas pela jornalista como protagonistas do “importante Fórum Internacional para mulheres importantes porque são empreendedoras, resilientes e que levaram bem alto o nome deste Departamento, sob a epígrafe “Amazónia e Biodiversidade: Energia Verde, Desenvolvimento Sustentável e Paz na Amazónia Colombiana”, realizado a 2 de junho, na Câmara do Comércio e Indústria em em Lisboa.

A iniciativa acima descrita enquadra-se no projeto “Caquetá Eco – Territórios Economicamente e Ecologicamente Sustentáveis”, o qual apoiou várias organizações comunitárias em La Montañita, El Paujil e El Doncello, articulando a conservação ambiental, o fortalecimento produtivo, a transformação agroindustrial, a participação das mulheres e a transição energética através de sistemas solares fotovoltaicos.

Pela voz das “Embaixadoras” caquetenhas

Segundo Yina Bailón, representante da ChocoAmazónic, “(o Fórum) foi um espaço onde pudemos contar um pouco o que fazíamos no território. Como cada uma das organizações que faz parte do projeto, apoiado pelo Camões, I.P., e executado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Red Adelco, hoje mostrámos a resiliência das mulheres no território e a diversidade de produtos que temos no nosso departamento e como seguimos a trabalhar.”

Enquanto conversam no ecrã surgem fotografias da missão empresarial, designadamente, a visita à empresa Frubaça, à chocolateria Melgão, o almoço com dezoito representantes da sociedade civil no restaurante Tágide, e a visita à sede do IMVF na baixa de Lisboa e, também, imagens do Fórum Internacional.

A jornalista pede mais contexto: como chegou este convite a estas mulheres do Departamento de Caquetá?

Sandra Gonzalez, representante da Asmupropaz e da Coombuvipac, explica que este processo não ocorreu da noite para o dia, tudo começou após a assinatura dos acordos de paz no ano 2016, momento a partir do qual, “chega a cooperação internacional”, designadamente, a União Europeia e Portugal. “Portugal gerou um processo muito importante” através do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., “e através do Instituto Marquês de Valle Flôr”, acrescentou Gonzalez, também por “Betsy”, nome de ex-combatente firmante de paz.

“Isso permitiu-lhes”, continua a Betsy, “fazer seguimento ao acordo de paz na Colômbia, mas também fortalecer os processos de base, com enfoque no género“. Segundo Betsy, os financiadores permitiram “que as mulheres que habitam o território amazónico possam pensar de maneira diferente e possam mudar a forma de pensar e trabalhar os seus territórios“, os quais tradicionalmente estavam mais associados à indústria de pecuária e à economia em torno dos ilícitos. “Esta é uma via alternativa”, diz Sandra Gonzalez, “porque estamos a falar da Amazónia, estamos a falar do processo de cacau, de aproveitamento agroflorestal como a canangucha (buriti), mas também das essências do corpo e da alma que tem esta Amazónia, como também os processos agroindustriais dentro destas quatro fábricas instaladas através deste projeto“.

Estes processos agroindustriais, segundo Betsy, “avançaram a nível da certificação e reconhecimento pelas autoridades ambientais e também o reconhecimento da marca para podermos ultrapassar as fronteiras“. “Estes apoios”, acrescenta para concluir este ponto, “foram importantes para que pensemos as nossas economias de forma sustentável, como as energias renováveis, o sistema solar“. A cooperação internacional “deixou uma experiência piloto dentro destas fábricas que já operam a 100% com sistemas de energia renovável, num Departamento que tem tanta dificuldade no setor elétrico.”

A pivot, entretanto, introduz um terceiro convidado que se junta à conversa de forma telemática: o Diretor da Fundação Allamano em Portugal, Carlos Andres Erazo Giraldo. A sua questão para Giraldo é sobre o que sentiu quando viu as três mulheres caquetenhasneste evento internacional tão importante, precisamente, a falar sobre a biodiversidade e o empreendedorismo”.

Carlos Giraldo, natural de Caquetá, no sul da Colômbia, vive em Lisboa há doze anos. Para si foi uma completa “alegria e surpresa”. Refere que recebeu o convite por parte do IMVF para participar no “Fórum Internacional Amazónia e Biodiversidade”, e constata “que o foco central eram três mulheres caquetenhas”.

Para mim foi claramente uma surpresa, porque é algo que não se vê sempre,” asseverou Giraldo. “E depois”, prossegue na sua explicação, ao “ouvir as suas histórias, ouvir todo o processo que estão a fazer, foi uma grande alegria para mim pessoalmente, mas também para todo o auditório, todos ficaram surpreendidos pelo trabalho que estas três mulheres estão a desenvolver e como se estão a empoderar e a levar os seus produtos para fora.”

Exportar não é fácil“, afirma perentoriamente com a experiência que leva na Europa, Carlos Giraldo, “porque existem muitos regulamentos, existem muitas normativas. Que bom que elas (as 3 empreendedoras) já comecem a entender tudo isto”.

“Uma coisa importante”, prossegue Giraldo, após recordar a sua naturalidade caquetenha, “agora as pessoas já identificam onde fica Caquetá e isso é uma grande alegria, ter aqueles produtos caquetenhos aqui (em Lisboa) e ver como a Cooperação Portuguesa está a ajudar, a auxiliar a construir comunidades, está a cuidar da Amazónia“.

O diretor da Fundaçao Allemano dá a seguir uma nova nota: “o consumidor europeu não vê somente o produto, vê a origem e quem o produz; não vai comprar qualquer coisa”. Nesse sentido, prossegue, “com certeza estes produtos causam impressão e dão a perspetiva de contribuir socialmente“.

A jornalista pega na deixa do Diretor da Fundação Allemano, relativa ao consumidor europeu valorizar a origem dos produtos, e pergunta “que expetativas de negócio têm de negócio todos os empreendedores de Caquetá que estão a apostar nestas novas economias?”

Carlos Giraldo começa por dizer que sabe como funciona o mercado europeu: “aqui não é tão fácil“, diz, “porque quando entramos no mercado europeu temos de competir com todo o mundo“. “Existem muitos competidores que querem entrar aqui”, esclarece. Mas salta para uma nota mais otimista ao dizer: “que bom que elas, nesta visita, tenham conhecido fábricas, empreendedores, empresários“. “Estes ajudaram-nas a entender como funciona o mercado e a entender que entrar aqui (na Europa) não é uma questão de um ou dois anos. Não. Há que construir um histórico. E parte desse histórico já começou com esta visita.” Conclui, dizendo que “agora já se está a fazer um grande trabalho, que é semear as sementes e depois elas vão colher os frutos. E depois, outros agricultores, outros empreendedores podem colher frutos destas sementes desta primeira visita“.

A pivot volta a sua atenção às duas convidadas sentadas no sofá partilhado entre as três. “Carlos mencionava que têm uma visão ampla e que isso abre a porta a novos empreendedores. Como se sentiram e com que visão regressam ao Departamento de Caquetá?

Para Yina Bailón, da ChocoAmazónic, “tendo em conta a experiência que tivemos indo a várias empresas onde surgiram também processos organizacionais ou empreendimentos familiares e que hoje têm um reconhecimento em Lisboa e em toda a Europa, quanto aos produtos que fazem e distribuem nesses países”, tudo isto resultou em aprendizagem.

Hoje, diz Bailón, “realizámos algumas alianças importantes para a comercialização dos nossos produtos. E seguimos a trabalhar com o IMVF e com o Camões, I.P., num processo de comercialização, visto que nós já estamos na etapa de comércio e de seguir com o fortalecimento dos produtores que fornecem a matéria-prima a partir do qual obtemos o produto final.”

Yina, explica a seguir que também já têm um circuito comercial local: “já estamos a distribuir em várias lojas, supermercados. Porém, estamos à procura de outro nível de distribuição para os nossos produtos.” A seguir, articulando-se com a intervenção do Carlos Giraldo, “os nossos produtos têm procura neste tipo de países porque são sabores diferentes, complementam os produtos que já gerem atualmente, incluindo na indústria alimentar que os Europeus vêm a desenvolver”. A seguir, a representante da ChocoAmazónic dá exemplos: “no caso do chocolate, é um sabor diferente dos cacaus que atualmente importam de outros países”. Para Yina, “hoje Caquetá começa a ser reconhecida por ter diferentes condições organoléticas dos seus produtos.” Conclui, dizendo que “hoje Caquetá e a Amazónia são uma vantagem para os europeus, porque puderam conhecer chocolates com inclusão de açaí, copoazú, coco, arazá, e derivados de ervas aromáticas que fazem as minhas companheiras“. Assim, refere “que o panorama é atrativo para nós, em querermos diversificar produtos e poder cobrir estes mercados“.

Para retomar a conversa com a Sandra Gonzalez, a jornalista pergunta há quanto tempo investem no desenvolvimento das suas empresas sociais?

Betsy, aproveita para explicar que é assinante do acordo de paz e que leva 5 anos a desenvolver o processo das essências e como extrair industrialmente esses derivados de “todas essas plantas que são únicas do território Amazónico”, através do recurso “às mulheres produtoras que têm um conhecimento ancestral.” Depois Betsy esclarece que “o processo das aromáticas e do ananás que é muito conhecido em Agua Bonita vem de há 8 anos“. “Há 8 anos que enfrentamos muitos desafios, e como disse a Yina, hoje chegamos com uma visão diferente e com um reconhecimento que o que estamos a fazer, estamos a fazê-lo bem“, acrescentou Gonzalez. E a seguir complementa com a nota: “o que estamos a fazer é muito importante porque o estamos a fazer a partir das mulheres camponesas e de muitos processos empíricos“. “E sim, temos um sonho de ganhar escala na economia e na comercialização e que graças ao Camões, I.P., ao IMVF e à Red Adelco que puseram os olhos em Caquetá, isto poderá ir muito além da pecuária intensiva”, disse Betsy, e refere a seguir que querem promover “o turismo que seja ecológico, sustentável e que ajude a melhorar as condições de vida e o bem-estar da sociedade e do ecossistema neste bioma amazónico.”

A jornalista refere que “temos em Portugal um embaixador caquetenho” referindo-se a Carlos Giraldo, desafiando-o assim para saber se adquiriu produtos para o seu consumo?

Giraldo responde que ficou “supercontente e feliz pelo que estas mulheres alcançaram“. E depois referiu que a Daisy Bermeo, representante da Asmucoca – Associação de Mulheres Rurais da Colômbia e de Caquetá, que é produtora de canangucha (buriti), e “eu como caquetenho não conheço a canangucha”, mas graças ao Fórum “já ouvi falar que existe farinha de canangucha, óleo essencial de canangucha. Explicou depois sobre a intolerância ao glúten e que a farinha de canangucha é uma boa resposta para esse mercado – “essa é a riqueza de Caquetá, tantos produtos, tanta diversidade e afinal dão resposta a necessidades alimentares no mundo”.

A jornalista, para concluir, refere a importância de se valorizar os produtos locais, despedindo-se ao felicitar as duas representantes das cooperativas pela “importante representação que fizeram do Departamento de Caquetá“.

Sandra aproveitou para agradecer, juntamente com a Yina, a entrevista, e disse que “como Embaixadoras de Caquetá sentem-se orgulhosas“. “Nós também”, conclui a jornalista.

Yina apela a que continuem a consumir “o que é nosso, e que façam parte deste processo de transformação que fazemos“, e por fim, “que façam parte desta dieta alimentar e que sigam a apoiar estas (quatro) empresas que são uma garantia para estas pessoas, os produtores, pois vimos de uma outra maneira a contribuir para essa economia familiar”.

O projeto Caquetá ECO, é financiado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Rede Nacional de Agências de Desenvolvimento Local da Colômbia – Red Adelco, reafirmando o seu compromisso com a implementação de soluções inovadoras que promovam territórios sustentáveis, competitivos e em paz.

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