Realizou-se, no passado mês de janeiro, no contexto do Projeto Territórios Sustentáveis para a Paz em Caquetá, na Colômbia, uma missão de assistência técnica dirigida pelo Professor Manuel Correia, especialista em agricultura tropical do Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa. Esta foi a segunda vez que o Professor prestou apoio ao projeto no terreno, procurando validar e reforçar as estratégias criadas, assim como as metodologias e instrumentos adotados para a sua implementação.

Esta missão confirmou a importância da promoção de práticas agroflorestais diversificadas como alternativa às práticas pecuárias extensivas, tipicamente utilizadas na região. Este tipo de práticas tem um impacto ambiental extremamente negativo ao potenciar a desflorestação e a utilização intensiva de pesticidas, numa das principais regiões da Amazónia colombiana. O projeto procura fomentar e apoiar a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, particularmente através de práticas agroflorestais. A promoção de culturas produtivas (café, cacau, cana de açúcar e canangucha) em sistemas agroflorestais onde a floresta preexistente é conservada, ou mesmo potenciada através de iniciativas de reflorestação, permite conciliar a preservação do ecossistema amazónico com a promoção do desenvolvimento socioeconómico, criando novas fontes de rendimentos para as comunidades locais.

Neste contexto, a inovação técnica e produtiva assume um papel essencial. Assim, no quadro da missão, foram avaliadas as potencialidades da utilização da canagucha, um produto não lenhoso com uma enorme importância ecológica nas regiões amazónicas, podendo constituir um elemento potenciador da regeneração destes ecossistemas e promotor da biodiversidade. Para mais, as propriedades nutricionais e cosméticas da canagucha, tradicionalmente utilizada pelos povos indígenas da amazónia, tem vindo a ser reconhecida pelas suas propriedades nutricionais e cosméticas, e a comercialização do seu óleo surge como uma oportunidade para a população local.

O trabalho direto com os produtores constituiu um dos principais elementos da missão. Foram avaliadas as necessidades de adaptação de algumas práticas culturais utilizadas nas plantações de cacau e foi implementada uma abordagem formativa junto dos produtores, a qual facilitará a adoção destas técnicas.

O investimento na certificação biológica é um dos principais desafios do projeto, numa região onde a grande maioria das explorações agrícolas ainda utiliza pesticidas e outros produtos químicos. Neste contexto, o trabalho direto com os agricultores revela-se, mais uma vez, essencial. Assim, no que toca à certificação, apostou-se em trabalhar, numa fase inicial, com um número reduzido de agricultores, para garantir uma transição eficaz para a agricultura biológica, permitindo também originar casos de sucesso que facilitem a reprodução desta lógica noutras comunidades produtoras. Neste contexto, revelou-se ainda evidente a importância da melhoria da qualidade como estratégia essencial para garantir o aumento dos rendimentos agrícolas e o acesso aos mercados. Foi assim possível, no quadro da missão, acompanhar diretamente a equipa técnica envolvida no processo de certificação junto dos agricultores, validando e reconhecendo a sua metodologia de trabalho e nível de conhecimento técnico.

Por fim, a presença no terreno permitiu avaliar o contexto local no que toca ao escoamento das produções agroflorestais. Na verdade, na presente fase do projeto, e no que respeita ao cacau, revela-se essencial optar por uma de duas estratégias de investimento: apostar na centralização da produção (para transformação e venda) em centros de coleta que reagrupem várias comunidades, ou investir em infraestruturas e ferramentas de gestão individual dos processos pós colheita. A primeira opção pode, por um lado, facilitar a fiscalização e garantia da qualidade dos produtos, mas, por outro, carecer de adesão por parte dos agricultores, numa zona onde o difícil acesso à maioria das comunidades produtoras complica o transporte dos produtos agrícolas, podendo mesmo pôr em causa a sua qualidade. Após os dados recolhidos no terreno, estas duas hipóteses estratégicas estão agora a ser avaliadas e discutidas com cada produtor.

O Instituto Superior de Agronomia revela-se, assim, um parceiro essencial do Projeto Territórios Sustentáveis para a Paz em Caquetá, assegurando o conhecimento técnico e experiência consolidada na área da agricultura tropical, fatores essenciais para a robustez e eficácia da componente produtiva deste projeto.