O Observatório da Paz – Nô Cudji Paz realizou, no dia 27 de janeiro de 2024, sessões de discussão comunitáriasdjumbais, para debater os mecanismos de prevenção do radicalismo e extremismo violento na sociedade guineense. As sessões que abrangeram no total 343 pessoas ocorreram simultaneamente em três localidades, moderadas pelos coordenadores dos respetivos escritórios regionais no quadro do projeto, designadamente em Ingoré (setor de Bigene, região de Cacheu, norte do país), Djabada Porto (setor de Tite, região de Quinara, sul do país) e em Pirada (região de Gabu, região leste).

Durante os encontros, foram debatidas de forma ativa as noções conceptuais e sinais de radicalismo e extremismo violento no país, bem como outras questões fundamentais como os direitos humanos, a igualdade de género, a justiça e a segurança. Os participantes destacaram diferentes comportamentos que podem indicar vulnerabilidades, adaptando a discussão aos contextos específicos de cada região.

Na região leste, por exemplo, a vulnerabilidade representada pela linha de fronteira, especialmente no que diz respeito ao fluxo migratório proveniente do Senegal e de outros países onde grupos extremistas violentos estão ativos, foi amplamente discutida. Consequentemente, os participantes abordaram temas como a ineficácia do sistema judicial, alguns investimentos feitos com financiamentos suspeitos, as tensões doutrinárias no seio da comunidade islâmica e a instrumentalização religiosa para fins político-partidários, bem como a falta de colaboração entre as comunidades e as autoridades regionais, uma vez que são as populações que alojam de forma clandestina pessoas provenientes de países vizinhos.

Na região sul, os participantes destacaram uma série de preocupações significativas. Observou-se a instrumentalização étnica para fins político-partidários, juntamente com a preocupante situação da baixa escolarização das meninas. Além disso, foi ressaltado o elevado índice de extrema pobreza, exacerbado pela ausência de um setor privado que estimule o investimento, criando assim vulnerabilidades que podem ser exploradas por grupos radicais.

Na zona norte, os participantes levantaram sérias preocupações quanto à injustiça e a fragilidade funcional das estruturas descentralizadas do Estado, que falham em garantir o bem-estar social das populações locais. Também foram destacadas questões relacionadas com a politização do sistema judicial, a intolerância entre diferentes grupos religiosos, com especial atenção aos adeptos do animismo. Além disso, os participantes denunciaram os frequentes casos de espancamento motivados por acusações de feitiçaria.

No geral, os participantes dos djumbais comunitários, que incluíram líderes tradicionais e religiosos, membros de associações de jovens e mulheres, bem como responsáveis das autoridades regionais, expressaram a recomendação para que fossem promovidas mais sessões semelhantes. Além disso, enfatizaram a importância de envolver os militantes dos diferentes partidos políticos para uma compreensão mais ampla dos riscos associados aos discursos de ódio e incitação à violência.

Por último, essas sessões de djumbais também proporcionaram uma oportunidade para fortalecer as capacidades dos 26 pontos focais vinculados aos escritórios regionais. Esses colaboradores foram capacitados quanto ao preenchimento de formulários destinados à monitorização do radicalismo e extremismo violento, além de receberem orientações sobre a sensibilização da população para a consolidação da paz e coesão social.

Essas sessões evidenciaram a necessidade de continuar a abordar o radicalismo e extremismo violento na Guiné-Bissau, bem como a importância de uma abordagem multidisciplinar e colaborativa para enfrentar esses desafios.

O projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz é financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P, implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH). A ação pretende contribuir para o diálogo e para a promoção da paz, através do reforço da participação, do trabalho em rede e do estabelecimento de parcerias estratégicas com a sociedade civil, designadamente, abrangendo, diretamente, as mulheres jovens e adultas, com vista à prevenção da radicalização e do extremismo violento na Guiné-Bissau.

A ação contribui diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS):

  • ODS 5 – Igualdade de Género– Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas.
  • ODS 16 – Paz, justiça e Instituições Eficazes – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas a todos os níveis.

 

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