O Observatório da Paz – Nô Cudji Paz em parceria com o Ministério da Cultura, Juventude e Desportos guineense e com o alto patrocínio do então Primeiro-Ministro da Guiné-Bissau, Dr. Geraldo João Martins, promoveu entre os dias 22 a 23 de novembro de 2023, em Bissau, o Encontro Nacional dos Jovens para a Paz, com o propósito de Prevenção do Radicalismo e Extremismo Violento (PREV) no país.

O encontro foi presidido pelo Primeiro-ministro da Guiné-Bissau (à época), Geraldo João Martins, na presença do embaixador da União Europeia na Guiné-Bissau, Dr. Artis Bertulis, a Diretora Executiva do Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF), Dra. Carolina Quina, o Cônsul de Portugal Dr. Camilo João Costa, e o Presidente interino (à época) da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), Dr. Bubacar Turé.

O evento, sob o tema – “Construindo um Futuro de Paz: A Juventude Contra o Extremismo Violento”, juntou 100 jovens, entre os quais 50 rapazes e 50 raparigas, provenientes de todo o território nacional com vista à promoção de mecanismos de diálogo com os jovens, bem como a capacitação destes para o reforço da coesão social e a PREV na Guiné-Bissau.

O Primeiro-ministro abriu o encontro admitindo que “a juventude é um grupo de risco no que diz respeito à radicalização e à adesão ao extremismo violento pelo que deve ser mobilizada para desempenhar um papel na identificação dos sinais precoces deste mal que afeta o mundo”. Referiu que “o governo tem encetado esforços para o desenvolvimento de medidas” tais como “o reforço do ensino superior inclusivo, programas de estágios profissionais, empreendedorismo e emprego para jovens, apoio ao agronegócio para a juventude, programa de habitação jovem e a implementação do plano nacional da juventude”. Geraldo Martins afirmou que “os jovens são agentes da mudança e guardiões do seu próprio futuro” e por isso, devem procurar referências positivas e construtivas, tendo anunciado de que “o Governo reitera a sua determinação na prevenção do radicalismo e do extremismo violento, através do desenvolvimento e implementação de políticas e leis nacionais”.

O Embaixador da União Europeia na Guiné-Bissau, Artis Bertulis, considera que os jovens devem ser ouvidos e tidos em conta no desenvolvimento e implementação de políticas, que são tradicionalmente da responsabilidade dos adultos. Por outro lado, o diplomata desafiou a juventude guineense considerando que é tempo de se colocarem na linha da frente da luta contra as alterações climáticas, as desigualdades, a violência e de serem veículos de paz e de desenvolvimento do país. Para Artis Bertulis “a juventude deve ter uma voz ativa na definição das soluções que tenham impacto nos problemas que limitam o desenvolvimento sustentável, sendo um importante e crucial contributo para a consolidação de um clima de paz, justiça e prosperidade”.

O Cônsul de Portugal, Camilo João Costa, afirmou que “o extremismo e os extremos nunca são locais de encontro”. O Cônsul acredita que os jovens poderão ajudar na prevenção do radicalismo e extremismo violento, contribuindo para a manutenção de uma sociedade tolerante, multiétnica e plurirreligiosa, e além de travar os sinais já existentes, importa antes de mais prevenir o seu crescimento. Este diplomata disse ainda que “a cooperação portuguesa tem vindo a trabalhar com diversas organizações da sociedade civil guineense, nomeadamente a Casa dos Direitos, que tem por missão a promoção do diálogo entre diversos sectores da sociedade guineense, em torno da persecução dos direitos económicos, sociais, culturais, cívicos, ambientais e continuará a trabalhar com outros atores sociais e políticos com o objetivo de contribuir, sobretudo, para o estabelecimento de parcerias entre as organizações da sociedade civil e outros atores sociais e políticos”.

Bubacar Turé, à época Presidente interino da Liga Guineense dos Direitos Humanos considera que vivemos numa época difícil, com muitas ameaças de violência destruidora e de guerra e existem muitas situações de injustiça, que não deflagram em conflitos abertos só porque a violência dos que detêm o poder é tão forte que priva os mais fracos até mesmo da energia e da oportunidade de reivindicar os seus direitos. Para Turé, “nos dias de hoje existem pessoas impedidas por regimes autoritários e sistemas ideológicos de exercer o seu fundamental direito de serem elas mesmas a decidir o seu próprio futuro”.

No entender deste ativista dos direitos humanos “urge transformar a importância demográfica da juventude não só numa força para a desconstrução de narrativas extremistas violentas e discursos de ódio, mas também como um ativo capaz de contribuir para a consolidação da democracia, da paz, da coesão social, da prosperidade económica e da promoção dos valores da guinendade.

O Dr. Bakary Sambe, diretor do Timbuktu Institute, entidade senegalesa especializada nos estudos do fenómeno do radicalismo e extremismo violento na África Ocidental, foi o principal dinamizador dos dois dias de trabalho no qual foram discutidos vários temas, designadamente: o contexto guineense e as dinâmicas regionais sobre o radicalismo e extremismo violento; o papel dos jovens no reforço da coesão social e consolidação da paz; a perceção das ameaças e possíveis fatores de radicalização dos jovens; a identificação das estratégias digitais para o uso adequado das redes sociais e outras ferramentas de prevenção online.

Um dos momentos mais dinâmicos e seguidos com toda a atenção foi a apresentação das peças teatrais pelo “Grupo de Teatro Oprimido de Bissau – GTO”, retratando diferentes sinais de radicalismo e extremismo violento a partir de diferentes vivências sociais e religiosas.

Os jovens foram organizados em grupos de trabalho para interpretar e comentar os desafios e apresentar e discutir ativamente as considerações e conclusões a que chegaram. Trataram de temas como o radicalismo e extremismo violento, a sua evolução na região da África Ocidental e Sahel, incluindo os movimentos extremistas atuais e sinais para a deteção de riscos em zonas de maior vulnerabilidade e exposição.

Os jovens ativa e publicamente discutiram diferentes estratégias factíveis de serem aplicadas no processo de combate ao extremismo e radicalismo violento, e acabaram por votar e adotar por unanimidade a Agenda Comum da Juventude para a Paz.

Consulte a Agenda Comum da Juventude para a Paz aqui.

Trata-se de um documento abrangente que engloba onze áreas de atuação, visando fortalecer a PREV por meio das diversas estruturas juvenis nacionais. Os eixos abrangem setores essenciais, como político-social, cooperação e articulação em rede, educação e comunicação, participação política e representação, justiça e direitos humanos, emprego e oportunidades económicas, saúde mental e bem-estar, inclusão de género, cultura e educação para a paz, sustentabilidade e meio ambiente, culminando na garantia da resiliência comunitária. Este documento reflete um compromisso abrangente em diversas frentes, abordando áreas cruciais para o progresso e coesão social.

No encerramento do evento, o Secretário de Estado da Juventude e Desporto (à época), Abasse Embaló, assegurou aos jovens que o Governo da Guiné-Bissau coloca em destaque o setor juvenil, comprometendo-se a reunir esforços que criem um ambiente propício de oportunidades para a juventude. Destacando a importância dessa faixa etária como elemento vital para o desenvolvimento sustentável do país, o secretário enfatizou os esforços contínuos em prol do progresso e bem-estar dos jovens guineenses.

Para Embaló, “temos a devida obrigação de não ficarmos passivos diante dos desafios, e traçar mecanismo necessários e estratégicos de prevenção, tal como encontros de reflexão, de partilha e de desenvolvimento de habilidades nos domínios que permitam à nossa juventude compreender e interpretar os fenómenos que ameaçam a paz e estabilidade sub-regional”.

Carolina Quina, administradora executiva do IMVF reconheceu a qualidade, empenho e rigor da participação dos jovens durante o encontro, trazendo ideias inovadoras e uma nota de esperança e otimismo em relação ao futuro. Para Carolina Quina, a questão do radicalismo e extremismo violento está associada a vários outros fenómenos, nomeadamente, a problemática da boa governação, a justiça e as desigualdades, a ausência de uma economia inclusiva e que dê perspetivas de futuro para os mais jovens. A Administradora referiu que o IMVF será um parceiro ativo dos jovens para consubstanciar os compromissos assumidos através da Agenda Comum da Juventude para a Paz, contribuindo assim para um desenvolvimento integrado e sustentável, no qual os valores e anseios da juventude sejam devidamente reconhecidos e incorporados.

Binhan Quimor, uma das grandes vozes da Guiné-Bissau, fechou o encontro com chave de ouro, ao brindar os jovens com algum do seu reportório mais conhecido e devidamente acompanhado em coro pelo auditório.

O projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz é financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P, implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH). A ação pretende contribuir para o diálogo e para a promoção da paz, através do reforço da participação, do trabalho em rede e do estabelecimento de parcerias estratégicas com a sociedade civil, designadamente, abrangendo, diretamente, as mulheres jovens e adultas, com vista à prevenção da radicalização e do extremismo violento na Guiné-Bissau.

A ação contribui diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS):

  • ODS 5 – Igualdade de Género– Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas.
  • ODS 16 – Paz, justiça e Instituições Eficazes – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas a todos os níveis.
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