No dia 27 de fevereiro de 2024, uma delegação do Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, liderada pelo Dr. Bubacar Turé, Coordenador do Projeto e Presidente da Liga Guineense de Direitos Humanos (LGDH), realizou uma visita à comunidade de Mindará com o intuito de reforçar a coesão social. O gesto solidário acontece na sequência do incêndio, que ocorreu a 20 de fevereiro de 2024, e que destruiu o espaço de culto tradicional da comunidade.

Na sua intervenção, Bubacar Turé expressou que a visita teve como objetivo demonstrar a inequívoca solidariedade da LGDH e do Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF), responsáveis pelo Observatório da Paz, para com a comunidade local, após o incêndio ocorrido no espaço tradicional de culto. Turé condenou veementemente o incidente, classificando-o como um “ato extremista” com potencial para prejudicar a coesão nacional e a convivência pacífica.

Bubacar Turé instou as autoridades judiciais a utilizarem todos os meios legais disponíveis para identificar rapidamente e responsabilizar criminalmente os autores do ato. Manifestou, igualmente, a profunda preocupação do Observatório da Paz com o aumento dos sinais de intolerância religiosa, política e étnica na Guiné-Bissau, alimentados por discursos de ódio e que representam uma ameaça à coesão nacional. O coordenador do projeto apelou, também, à comunidade local para que renunciasse à vingança pelos próprios meios e permitisse que as autoridades judiciais conduzissem o processo de investigação e a aplicação da justiça de forma adequada.

Um dos balobeiros (responsáveis da baloba[1]), Pedro da Silva, informou que a Baloba da comunidade local foi incendiada por indivíduos, alegadamente, pertencentes à igreja evangélica Ministério de Amor pela Fé Internacional (MAFI). Silva explicou que esses indivíduos conduziram recentemente reuniões de oração como parte de uma campanha evangelística durante a qual teriam, alegadamente, proferido ameaças ao espaço da Baloba, associando-o à prática de feitiçaria.

Pedro da Silva manifestou a satisfação da comunidade local pela visita de solidariedade do Observatório da Paz e solicitou o apoio do projeto na identificação e subsequente responsabilização dos autores morais e materiais do ato que qualificou de “inaceitável”.

Joana da Silva, um dos elementos femininos auscultados, não compreende a ação de “intolerância religiosa” perpetrada pelos autores do ato, pois segundo ela “os membros desta comunidade da igreja evangélica realizam os cultos com total liberdade no bairro, sem que fossem perturbados”. Por isso, questiona “porque é que os outros não podem professar as suas religiões em igual liberdade”?

Jacinto Monteiro, outro membro da comunidade local, referiu que, não obstante a revolta e a tensão que se vive no bairro, em consequência da destruição de um espaço sagrado de culto de longa data e cuja restauração envolverá significativos custos financeiros, farão um esforço para renunciar a todos os atos de justiça própria, aguardando as conclusões das investigações desencadeadas pela Polícia Judiciária. Contudo, alertou que, caso a justiça não seja aplicada para responsabilizar os autores do incidente, a comunidade local estará preparada para acionar os mecanismos necessários para garantir os seus direitos.

O projeto Observatório da Paz – Nô Cudji Paz é financiado pela União Europeia e cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P, implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH). A ação pretende contribuir para o diálogo e para a promoção da paz, através do reforço da participação, do trabalho em rede e do estabelecimento de parcerias estratégicas com a sociedade civil, designadamente, abrangendo, diretamente, as comunidades locais, lideranças religiosas, poderes tradicionais, com vista à prevenção da radicalização e do extremismo violento na Guiné-Bissau.

A ação contribui diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS):

  • ODS 16 – Paz, justiça e Instituições Eficazes – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas a todos os níveis.

[1] Baloba – locais sagrados onde algumas etnias guineenses praticam cultos religiosos ancestrais.

 

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