Para Alova, filho de uma das mulheres acompanhadas durante a missão, a forma como a equipa prestou os cuidados fez toda a diferença. Nas suas palavras, o trabalho dos profissionais de saúde portugueses foi marcado pelo “respeito, consideração pela informação de cada paciente, sem pressa e com total abertura”, considerando que a missão foi norteada pela “responsabilidade, ética, a paciência e o amor”.

Entre maio e julho, a missão do IMVF levou a sensibilização para o diagnóstico precoce a diferentes unidades de saúde da Guiné-Bissau e contribuiu para criar uma resposta especializada para a patologia mamária no Hospital Militar Principal. Ao longo da missão, foram realizadas 208 consultas de senologia e 78 pedidos de mamografias. O testemunho de Alova mostra ainda uma dimensão essencial das missões no terreno: o acesso aos cuidados especializados é acompanhado de proximidade, escuta e respeito por cada pessoa que procura ajuda.

O diagnóstico precoce pode fazer a diferença no percurso de uma pessoa com cancro da mama. Na Guiné-Bissau, onde o acesso a cuidados especializados continua a enfrentar desafios, aproximar a informação, o diagnóstico e o tratamento das pessoas é também uma forma de reforçar a resposta do sistema de saúde.
Foi com esse objetivo que, entre 5 de maio e 30 de julho, o Instituto Marquês de Valle Flôr realizou uma missão dedicada à sensibilização para o diagnóstico precoce do cancro da mama, no âmbito do projeto Novos Horizontes para Cuidados Especializados e Telemedicina na Guiné-Bissau, financiado pela Cooperação Portuguesa.
A missão, realizada em estreita colaboração com o Hospital Militar Principal (HMP), juntou a enfermeira especialista em doenças oncológicas da patologia da mama Maria do Céu d’Oliveira Martins e o cirurgião geral sénior Prof. Dr. Francisco d’Oliveira Martins. O trabalho combinou sensibilização e literacia em saúde, consultas especializadas, diagnóstico, cirurgia e capacitação de profissionais de saúde.
Levar a informação mais longe
A sensibilização foi uma das dimensões centrais da missão. A equipa visitou 12 centros de saúde, hospitais e clínicas, incluindo o Hospital de Bor, Hospital da Cumura, Hospital Renato Grandi, Centro Materno Infantil e vários centros de saúde da região de Bissau. Foram ainda realizadas sessões de esclarecimento no Hospital de Bor, Hospital da Cumura, Hospital Catarina Troiani, em Nhacra, Centro de Saúde Antula e Centro Materno Infantil.
A campanha chegou também às rádios, através da Rádio Capital, Rádio Sol Mansi, Rádio Nacional e Rádio África, que contribuíram para ampliar a divulgação das mensagens de prevenção e diagnóstico precoce, também através das suas plataformas digitais.
A sensibilização estendeu-se ainda a espaços de partilha e formação. Entre outros momentos, a equipa participou na 1.ª Convenção Internacional de Saúde da Universidade de Cuba na Guiné-Bissau e promoveu uma sessão no Centro Cultural Português, dedicada à prevenção do cancro da mama. A missão juntou também especialistas portugueses e guineenses de diferentes áreas, incluindo Senologia, Imagiologia, Oncologia, Anatomia Patológica e Saúde Pública, para analisar as estratégias mais adequadas a contextos com recursos limitados e reforçar a cooperação técnico-científica entre os dois países numa reunião científica internacional no Hospital Militar Principal.
Uma nova resposta para a saúde da mama
Um dos resultados mais relevantes da missão foi a implementação da Consulta de Senologia no Hospital Militar Principal, integrada no serviço de Ginecologia/Obstetrícia.
Durante a missão, foram realizadas 208 consultas de senologia, tendo sido realizadas 78 pedidos de mamografias e 63 doentes operados, para além de pedidos de ecografias mamárias e exames de TAC toracoabdominal para estadiamento.
Os dados mostram também a importância de criar canais de acesso à consulta: só no período analisado entre maio e julho, 171 pessoas chegaram à consulta através de referenciação por rádio e redes sociais.
A missão permitiu ainda identificar casos com suspeita clínica de cancro da mama e acompanhar o respetivo percurso diagnóstico. Na segunda metade de julho, por exemplo, foram registados oito casos de possibilidade clínica de cancro e quatro confirmações histológicas.
Do diagnóstico ao tratamento
A articulação entre cirurgia, imagiologia, ginecologia-obstetrícia e outras áreas clínicas permitiu dar continuidade ao tratamento de diferentes patologias.
O trabalho contou ainda com o envio de material para exame histológico para o Laboratório de Anatomia Patológica da Universidade Jean Piaget, em Bissau, contribuindo para completar o processo de diagnóstico.
Reforçar capacidades para garantir continuidade
Esta missão deixou bases para a continuidade de uma resposta especializada à patologia mamária na Guiné-Bissau. O crescimento progressivo do número de utentes da Consulta de Senologia revela a necessidade e importância de consolidar esta resposta permanente no sistema de saúde guineense.
O reforço da capacidade de diagnóstico surge igualmente como uma prioridade, a par do desenvolvimento faseado de uma resposta de oncologia que permita melhorar o acesso aos tratamentos na Guiné-Bissau.
Este é o caminho que o projeto Novos Horizontes procura continuar a construir, através de uma resposta de saúde mais próxima, especializada e capaz de responder às necessidades na Guiné-Bissau, reforçando simultaneamente o conhecimento, os meios e a capacitação dos profissionais e das instituições de saúde locais.


