Na manhã de 29 de julho, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa debatemos e reflectimos sobre o que têm em comum a geopolítica e o ambiente e de que forma os equilíbrios de poder e as dinâmicas do sistema internacional se relacionam com as alterações climáticas e a ecologia.

As origens das mudanças climáticas têm a ver com três grandes e muito recentes acelerações:

Uma delas, foi o rápido crescimento populacional que se seguiu às revoluções industrial e verde e que levou a um aumento exponencial da demografia de mil milhões de pessoas no início do século 19 para 8 mil milhões, número este que deverá ser alcançado nos próximos anos.

Uma segunda, foi o aumento correlativo do consumo, que tem sido mais do que proporcional ao crescimento da população, à medida que as classes médias se expandem em países ricos e agora também em economias emergentes e em desenvolvimento, colocando enormes pressões sobre recursos como terra arável e água.

A terceira, tem a ver com os padrões de consumo, especialmente de combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás – que foram formados há centenas de milhões de anos e agora estão a ser esgotados a taxas crescentes.

O esgotamento de recursos e as consequências das emissões globais de CO2 já fizeram superar a tradicional divisão entre crentes e descrentes do papel significativo dos comportamentos humanos no aquecimento global. Agora, a questão é mais sobre aqueles que acreditam que o que está acontecendo é um aquecimento gradual (tipo 1) e aqueles que veem o advento das mudanças abruptas do clima a acontecer (tipo 2). O degelo parcial da Gronelândia e a enorme perda de gelo no Ártico são exemplos frequentemente citados por aqueles que argumentam que já estamos a viver um evento climático do tipo 2.

A geopolítica é bastante afetada pelas mudanças climáticas. A disponibilidade e distribuição de água, o advento das ondas de calor e suas consequências sobre os seres humanos e vegetação, a aceleração do aumento do nível do mar, a criação de novas rotas marítimas induzidas pelo derretimento das calotes de gelo, a exploração de recursos no Ártico e na Antártica são alguns exemplos do impacto das mudanças climáticas na geopolítica. A queda das taxas de crescimento demográfico (que estão a ocorrer desde a década de 1970) e os avanços tecnológicos oferecem soluções para alguns dos problemas; porém, as mudanças climáticas são, agora, as mudanças globais mais preocupantes.

A globalização nas suas várias facetas poderá continuar sujeita a controvérsias e disputas políticas. No entanto, a capacidade da nossa espécie para enfrentar grandes ameaças implica uma maior e mais reforçada cooperação entre as grandes potências, de modo a lidar com algumas das grandes questões. A concretização deste tipo de cooperação entre as grandes potências representa, no entanto, uma grande interrogação, face às disputas que estão a ocorrer.

As atuais tendências de aumento das desigualdades acelera os problemas causados pelas mudanças climáticas. O aumento da desigualdade acarreta grandes desafios, devido às contradições que se colocam entre, por um lado, a necessidade de mudar padrões de consumo e, ao mesmo tempo, as pulsões para o aumento dos níveis de consumo nos países emergentes e em desenvolvimento, onde se verifica o crescimento da urbanização e de classes médias que, naturalmente, desejam aumentar o respetivo nível de vida.

A economia verde poderá ser a melhor resposta para esta equação. De facto, os combustíveis fósseis terão de ser substituídos por energias renováveis e outras formas de produzir energia sem aquecer o planeta. A cooperação em larga escala para enfrentar a fome e a emigração em regiões mais pobres, como o Sahel, precisa de ser encarada de forma mais decisiva e só pode ser tratada por coligações internacionais. Os movimentos sociais e a juventude estão a tornar-se agentes importantes de mudança para conter as ameaças climáticas para as gerações presentes e futuras.

Depois dos nacionalismos e do bilateralismo que dominaram o ambiente que conduziu a duas guerras mundiais no século XX, o advento do multilateralismo permitiu a construção do projeto europeu após a segunda guerra mundial. Infelizmente, uma grande mudança nas realidades e perceções de segurança ocorreu, principalmente após a guerra no Iraque no início do século atual, com o regresso progressivo do bilateralismo e da política do balanço de forças.

Apesar destas tendências, a aprovação do Acordo de Paris e da agenda dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável em 2015 representam exemplos contrários às mesmas e dão oportunidade ao surgimento de movimentos sociais, particularmente protagonizados por gerações mais jovens, que emergem e lutam pelo cumprimento das metas dos ODS, pressionando também por uma mudança nos padrões de consumo e a favor da preservação das condições de vida do planeta. Por sua vez, um cada vez maior número de empresas do setor privado está empenhada em soluções que travem a degradação do meio ambiente, incorporando nas respetivas estratégias melhores práticas para economizar recursos e encontrar novas soluções tecnológicas e económicas.

A mais vital das mudanças globais parece ser, portanto, a busca de uma melhor relação entre a nossa espécie e o ecossistema. Esta é uma mudança que às vezes colide com interesses geopolíticos, pois este a geopolítica é o campo da rivalidade e da cooperação entre atores estatais, com particular ênfase para as potências globais e regionais. No entanto, a geopolítica também é afetada por mudanças globais de longo prazo, na medida em que estas transformam o cenário de atuação dos estados e dos principais atores do sistema internacional.

O petróleo (e o gás) são por excelência as produções com maior impacto geoestratégico. A transição de energias fósseis para energias renováveis e para outras formas não poluentes de produção terá impacto em regiões que dependem fortemente da exploração dos combustíveis fósseis. Dado que a maior parte do petróleo e do gás se produz nas regiões do Oriente Médio e em partes do Cáucaso do Sul, compostas por países com população maioritariamente islâmica, considerando os acontecimentos dos últimos anos, a transição energética coloca questões essenciais à geopolítica. Por estes motivos, o equilíbrio entre intenções e realidades representa um enorme desafio para que não ocorram consequências indesejáveis e destrutivas.

As expectativas de descarbonização também têm de lidar com o fato de que nos encontrarmos em plena era do carbono (após as épocas da pedra, do bronze e do ferro), que é um elemento crescentemente utilizado na produção industrial. Ou seja, a questão não se pode centrar na substituição de produtos de carbono, mas sim em como evitar a libertação de partículas de CO2 que provocam o aquecimento da atmosfera.

Soluções tecnológicas implicam a cooperação de grandes potências em alguns grandes empreendimentos, como a exploração de recursos necessários para a fusão nuclear (hélio 3 na lua, para dar um exemplo), ou como utilizar soluções de geoengenharia para transformar desertos em espaços verdes, aproveitando enormes aquíferos subterrâneos – no Sahel, por exemplo.

O debate entre palestrantes e com o público seguiu-se à apresentação. A geoengenharia nos desertos foi discutida, dadas as experiências malsucedidas da plantação de espécies vegetais (acácias) capazes de resistir naqueles ambientes agrestes, que não produziram resultados esperados. Outro argumento oferecido contra a geoengenharia foi o de ser preferível melhorar as condições de adaptação a condições ambientais extremas, em vez de se tentar transformar enormes espaços com elevados custos e resultados incertos.

A mudança nos padrões de consumo também foi discutida. Na verdade, a natureza humana e a política levarão as pessoas a apoiar o crescimento económico (e a exploração de recursos) para aumentar os níveis de consumo, com particular realce aos países que só agora estão a aumentar a urbanização e as classes médias. Esta é uma questão muito complexa, para o qual não basta apelar à consciência social, mas que requer soluções tecnológicas que permitam a transição de uma economia baseada na queima de combustíveis fósseis para outra que acentue o uso de energias renováveis e outras formas de produção de energia que não necessitem de queimar carbono e de o libertar para a atmosfera. Em qualquer caso, uma ideia muito compartilhada no debate foi a da necessidade de não negar as consequências da degradação do clima e o aumento das partículas de CO2 e de agir para mudar esse caminho.

Na discussão, foi constatada a aceitação crescente dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável pelo setor privado, dada a combinação de regulamentações estatais (incluindo proibições e subsídios) com as escolhas e preferências dos consumidores por produções limpas. Em qualquer caso, a aceitação dos ODS pelos privados foi considerada como sinal muito encorajador, uma vez que a transição energética precisa de amplas alianças nacionais e internacionais, entre estados, privados e consumidores.

Outra questão que emergiu no debate foi a de ser ou não possível deslocar prioridades do crescimento para o decrescimento, acompanhado por uma mais justa e eficaz redistribuição da riqueza. Contudo, apesar do consenso no combate ao aumento das desigualdades – não apenas porque são injustas, mas também porque são ameaças geopolíticas -, o decrescimento não parece ser uma alternativa viável, dada a tendência de o analisar como fonte de desemprego, o que leva as forças políticas a não o defenderem como solução. Por fim foram salientadas as tecnologias open source e que permitem a utilização gratuita de patentes – foi dado como exemplo a tecnologia de criação de campos magnéticos para impulsionar comboios de alta velocidade.

A Lisbon Talk foi organizada pelo Clube de Lisboa e pela Sociedade Portuguesa de Ecologia (SPECO), com apoio do IMVF e da Câmara Municipal de Lisboa. O painel teve lugar no âmbito do 15.º Congresso da Federação Europeia de Ecologia, que juntou em Lisboa centenas de especialistas sob o tema Embedding Ecology in Sustainable Development Goals.