Secundino Ortega, 55 anos, de Guantánamo é médico pediatra, Yania Concepcion, 47 anos, de Havana é enfermeira especialista em saúde materna e infantil e Norma Fisher, 49 anos, de Santiago é médica de ginecologia e obstetrícia. São 3 dos 9 profissionais de saúde que constituem a equipa médica que, em novembro de 2017, viajaram de Cuba no quadro de uma iniciativa de cooperação triangular percursora entre Portugal, Cuba e Guiné-Bissau para trabalhar no quadro do PIMI II – Programa Integrado para a Redução da Mortalidade Materna e Infantil, na Guiné-Bissau e que atuam no Hospital Regional de Gabu, contribuindo diariamente para o principal objetivo deste projeto: a redução da mortalidade materna e infantil na Guiné-Bissau.

“A nossa principal função é dar formação aos médicos e técnicos de saúde da região de Gabu, mas também damos apoio ao Hospital de Bafatá, na área da pediatria. Considero que o trabalho até agora está a ter bons resultados e esperamos ter resultados ainda melhores até ao fim do projeto”, afirma Secundino Ortega.

A região de Gabu não estava abrangida pelo PIMI I, tendo em 2017 o projeto sido alargado à totalidade do país, atendendo aos resultados encorajadores alcançados. Esta região tem 260.628 habitantes (de acordo com as projeções mais recentes do INASA 2018), correspondente a cerca de 15% da população da Guiné-Bissau. É a região mais a leste do país, as etnias fula e mandinga são dominantes e a maioria da população é de religião muçulmana.

Desde o início do projeto que já decorreram várias formações dirigidas aos técnicos de saúde do Hospital Regional de Gabu, entre as quais Cesariana e Ecografia Obstétrica e Cuidados de Urgência em Obstetrícia e Neonatologia (CONU), cujo último ciclo formativo terminou em maio de 2019.

Estas ações formativas têm como objetivo consolidar os conhecimentos adquiridos nos ciclos de formação anteriores e respetivos, e que passam por fornecer as competências especificas das áreas de cuidados da urgência e emergência em obstetrícia e neonatologia e de realização de ecografias obstétricas, reforçando o uso dos recursos técnicos existentes para o efeito e disponibilizados pelo IMVF.

Ema Mango, 43 anos, de Bissau, vive em Gabu há 2 anos e já tinha trabalhado anteriormente em Cacheu. Ema faz parte da equipa PIMI II/IMVF e é enfermeira parteira, formadora e monitoriza os indicadores relativos às crianças menores de 5 anos, grávidas e puérperas.

“O PIMI II teve uma grande influência desde que chegou a Gabu em 2017. Vimos uma grande evolução no nosso trabalho, pois antes existiam muitos casos complicados de eclampsia, pré-eclampsia e anemia grave, mas agora já conseguimos melhorar, e o projeto também influenciou com a disponibilização de materiais para as áreas sanitárias, como aparelhos para medir a pressão arterial [esfigmomanómetros], glicemia e hemoglobina.”

A Enf. Ema acrescenta. “Com a formação que demos aos técnicos das áreas sanitárias, eles agora sabem identificar as mulheres com alto risco obstétrico, daí encaminham aquelas com maior risco para o Hospital Regional para fazer(em) seguimento; as outras eles mesmos atendem nas áreas sanitárias com tratamento e seguimento, e são feitas consultas semanalmente.” E acrescenta. “Também nas áreas sanitárias, os partos estão a decorrer de acordo com as orientações dos partogramas e os técnicos foram orientados para fazer logo à chegada os sinais vitais, avaliar quais os riscos que têm e qual a evolução mais tarde. Os técnicos das áreas sanitárias conseguem já fazer esse trabalho de forma autónoma sem influência de nenhum médico.”

Ema Mango refere ainda como mais valia do projeto a distribuição gratuita de medicamentos em todas as áreas sanitárias, bem como a entrega de prémios com base na evolução do desempenho de cada estrutura de saúde, de acordo com os indicadores clínicos delineados pelo projeto.

Charlo Gomes da Costa, enfermeiro, 33 anos, de Bissau, vive há 6 anos em Gabu. Em 2019 participou numa formação de anestesia, promovida pelo projeto, com a duração de 5 semanas. “Nesta formação demos o nosso máximo e aprendemos muitas coisas. O projeto também distribui medicamentos gratuitos necessários para as intervenções e temos conseguido reduzir muitas evacuações na região.”

Ronízio Bathy, 31 anos, médico de clínica geral, nasceu em Gabu e é ali que exerce a sua atividade como Diretor do Hospital desde 2019. Antes era Diretor da Maternidade. Realça o apoio que o projeto PIMI II tem dado ao Hospital e destaca o contributo dos especialistas cubanos em gineco-obstetrícia, em pediatria e medicina fetal.

“O nosso hospital [Hospital Regional de Gabu] recebe muitos casos de eclampsia, grávidas com hipertensão arterial, que dão convulsões, e também recebemos muitos casos de pediatria, crianças com anemia e paludismo grave e o nosso objetivo principal é reduzir a mortalidade materna e infantil”.

Em 2018 e 2019, Ronízio Bathy foi um dos participantes da formação em Ecografia Obstétrica, ministrada pela Dr.ª Patrícia Silva, especialista portuguesa em Ginecologia e Obstetrícia, do Hospital Nélio Mendonça na Madeira. Esta atividade formativa foi dividida em duas fases: o primeiro ciclo decorreu em novembro de 2018 e o segundo e último ciclo foi realizado em maio de 2019. A formação teve como objetivo fornecer competências específicas ao nível da realização de ecografias obstétricas, reforçando o uso dos recursos técnicos existentes para o efeito e disponibilizados pelo projeto.

“Esta formação ajudou bastante as grávidas, fizemos muitas ecografias às grávidas, e acabámos por detetar algumas malformações nos fetos, por exemplo, detetámos uma malformação cardiogénica, um feto com problemas cardíacos”, conta o Dr. Ronízio Bathy. A família tratou da documentação necessária para vir para Portugal, onde o bebé fez cirurgia”. De salientar que este tipo de malformação, quando corrigida cirurgicamente no período pós-natal, permite uma maior sobrevida.

Dr. Ronízio Bathy refere ainda que há alguns desafios culturais com os quais têm que lidar diariamente. “Estamos a ter muitos problemas com algumas famílias, a cultura está a dificultar o nosso trabalho, detetamos algumas malformações, mas alguns familiares não querem ajudar”.

O PIMI II tem como objetivos contribuir para a redução das mortalidades materna, neonatal e infantojuvenil na Guiné-Bissau e, em particular, para o alcance das metas traçadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e assegurar um melhor acesso a cuidados de saúde de qualidade a mulheres grávidas e puérperas (até 45 dias após o parto) e crianças até aos 5 anos na Guiné-Bissau.

A Guiné-Bissau apresenta indicadores particularmente alarmantes ao nível da saúde materna e infantil, registando taxas de mortalidades materna e infantil das mais elevadas do mundo. Neste contexto, cabe ao IMVF cobrir as necessidades formativas em várias valências e assistenciais num universo nacional de 132 hospitais regionais e centros de saúde, assegurando também a disponibilização e distribuição de medicamentos essenciais, equipamentos e consumíveis médicos e garantindo, ainda, a realização de reabilitações e manutenções nas infraestruturas dos hospitais e centros de saúde do país.

O programa beneficia diretamente cerca de 320 mil crianças menores de 5 anos, cerca de 400 mil mulheres em idade fértil, e mais de 1200 profissionais de saúde das 132 estruturas sanitárias do país. A ação beneficiará indiretamente a totalidade da população da Guiné-Bissau (1.881.005 habitantes). A componente a cargo do IMVF neste projeto é financiada pela União Europeia contando, ainda, com o apoio do Camões, I.P.

 

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