Os 900 quilómetros que uniram a Amazónia a Portugal

Uma delegação de quatro cooperativas de Caquetá percorreu o território nacional num roteiro de cooperação, inovação e paz, culminando num fórum histórico em Lisboa e em bases comerciais concretas que prometem contribuir para reescrever o futuro da floresta amazónica.

Lisboa, 1 de junho de 2026 – O relógio marca as 8h30 da manhã. Junto ao apartamento, o motor de uma Peugeot Traveller de nove lugares ruge em ponto morto. No interior, soam os primeiros acordes de Viajando por el mundo, de Karol G com Manu Chao: “Viajando por el mundo, me encontré / Cosas hermosas que antes no veía…”. Nos bancos traseiros, sete passageiros aprontam-se para o início da viagem, entre os quais as três empreendedoras colombianas, Yina Bailón, Sandra Gonzalez, Daisy Bermeo, líderes das cooperativas de Caquetá, e Luis Vargas e Sandra Ortega, representantes da Red Adelco, emprestam a sua voz à música escolhida pela comitiva internacional. Dois quadros do IMVF completam a delegação.

Trata-se de uma expedição com vista à partilha de culturas e produtos de grande qualidade que ligam o Sul global ao Norte. A missão empresarial a Portugal, enquadrada no projeto Caquetá Eco, tem objetivos concretos: visitar o tecido empresarial português para compreender como se importam e certificam matérias-primas não europeias; discutir oportunidades de investimento; e perceber as estratégias de criação de mercados para produtos de nicho, apostando na qualidade em detrimento da quantidade.

A “Porta Dourada” e a arquitetura da paz

Para compreender a importância desta missão empresarial, é preciso atentar ao enquadramento do projeto. Contribuir para a governação nos domínios da transição verde e da proteção da biodiversidade na Amazónia, na região de Caquetá, mas fazê-lo através do fortalecimento de práticas sustentáveis de produção, energia verde e agregação de valor para o empoderamento das comunidades locais. Financiado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., através do PROGEA (Programa Plurianual Conjunto de Cooperação para o Desenvolvimento nos Domínios do Ambiente e da Ação Climática 2030), o projeto é implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Red Adelco. Iniciado a 1 de janeiro de 2024, com término previsto para este verão de 2026, o projeto atua numa região popularmente conhecida como a “porta dourada da Amazónia“. Num território onde as economias lícitas e ilícitas historicamente depredaram o ambiente, o desenvolvimento de estratégias de produção sustentáveis que estimulem a agrofloresta são a única via para garantir meios de subsistência e a paz.

A rota da inovação: o que Portugal tem para partilhar

Para além do Fórum Internacional, o valor intrínseco da missão residiu na observação direta de boas práticas portuguesas replicáveis na Colômbia. A agenda foi desenhada como um benchmarking de excelência.

  • Casa Mendes Gonçalves

Na Golegã, a Casa Mendes Gonçalves abriu as portas do seu Centro de I&D. Com mais de “40 anos de experiência em fermentações e 17 anos de experiência em emulsões”, exportando para 31 países, a “casa de marcas” como a Paladin mostrou às cooperativas como se escalam os ingredientes endógenos. O foco centrou-se na capacidade da empresa em receber, selecionar e trabalhar matérias-primas, bem como na sua valiosa experiência em contextos de países em desenvolvimento, com destaque para o seu trabalho em São Tomé e Príncipe.

Ao entrar na sede da empresa, a delegação é conduzida à sala de reuniões, onde o projetor recria o ambiente profissional que esperava a comitiva colombiana. 1982: ano da fundação da empresa. Através da partilha dos principais momentos de inovação e de apostas empreendedoras, o grupo percebe que a coragem e o risco sempre fizeram parte da receita desta empresa: só nos últimos 3 anos lançaram 221 novas fórmulas no mercado de entre uma vasta gama de produtos: vinagres, maioneses, molhos, ketchups, mostardas, temperos, molhos zero calorias, molhos-vegan e vegetarianos, piri-piris e linhas de produtos étnicos. No fim, uma vasta gama destes produtos e representativa das diversas marcas da empresa será generosamente presenteada ao grupo visitante, para comprovativo da qualidade e da originalidade dos mesmos.

À semelhança dos projetos apoiados pelo Caquetá Eco, também a Mendes Gonçalves coloca uma atenção especial na responsabilidade social e ambiental da empresa; a sua produção anual de 15.2 t de vinagres e de 24.7 t de molhos, bem como os regulares projetos de I&D – 348 desenvolvidos até agora –, são garantidos pela sua equipa de 422 trabalhadores provenientes de pelo menos 11 nacionalidades distintas. A sua produção é apoiada com 279 kWh de potência fotovoltaica instalada, representando aproximadamente metade das necessidades energéticas, enquanto três quartos dos resíduos produzidos são valorizados. Quanto às certificações garantem as seguintes: Halal; “BRCGS – Food Safety Global Standard”, CSQA, entre outras.

Não fosse por isso que o seu fundador, Carlos Mendes Gonçalves, destacasse na página web da empresa que, “Para os próximos anos, grande parte do investimento será canalizado para a sustentabilidade, indo ao encontro do que acreditamos ser o consumidor do futuro, mais informado e mais exigente, que quer um produto de qualidade que venha de uma empresa em que ele confia e que respeita o ambiente e as pessoas”.

No fim da apresentação formal, e já equipados com EPIs[1] para se cumprir as regras de higiene e segurança, decorreu a visita às instalações da unidade fabril e às diferentes linhas de montagem em funcionamento.

Por fim, foi apresentado o projeto ambicioso em tudo relacionado com a área de intervenção deste diverso grupo de representantes da sociedade civil, o projeto “Vila Feliz Cidade”: “Acreditamos que a única maneira de mudar o mundo é através da educação”, e daí tiveram a ideia de “instalar uma escola no meio da natureza, que estimulasse o pensamento livre e promovesse novas formas de construir o futuro”.

Esta escola irá abranger 250 alunos, sendo o projeto arquitetónico assinado pelo atelier de arquitetura Tezuka Architects. O projeto, mais do que um edifício, passará pela promoção de “atividades educativas, agrícolas, zootécnicas”, bem como espaços de reunião ou passeios. A “Vila Feliz Cidade” evoluiu para um projeto com 30 ha de agricultura regenerativa, agrofloresta ou agricultura sintrópica[2] que já plantou milhares de árvores de fruto e variedades florestais. Joana Barbosa explica que o objetivo é a recuperação de solos, abrangendo já a produção biológica de pimentos picantes, figos e galinhas, enquanto nos conduz através dos campos do espaço agrícola.

“O que procuramos mostrar é que é possível viver em simbiose com a natureza, criando um sistema de abundância que respeita ao invés de explorar e esgotar a terra e os seus recursos. Esta será a base da alimentação do futuro e por isso apostamos no desenvolvimento do seu conhecimento e transmissão às novas gerações, de forma prática a partir da empresa e dos seus colaboradores para a sociedade que os envolve e onde se inserem”, explicam na página da Casa Mendes Gonçalves. Foi esta filosofia que os levou a criar a Fundação Mendes Gonçalves, que completou um ano de idade, assentando em três pilares: educar, regenerar, nutrir.

  • Carlos Sousa (CPS)

“O Santo Graal não era um cálice sagrado, mas sim o próprio filho de Deus!” – a afirmação consta no conhecido livro “O Código da Vinci” de Dan Brown, publicado em 2003, tendo sido igualmente referida por Luís Sousa, concernente à suposta ligação desta região com os descendentes de Jesus. E assim, no Favacal, Ourém, os delegados recebem uma aula de história alternativa.

Segundo Sousa, um dos descendentes de Jesus iria fixar-se na região de Ourém, aquando da perseguição dos cristãos pelos romanos. O Conde Dom Henrique e D.ª Teresa de Leão teriam conhecimento dessa informação, daí terem requerido essas terras que ultimamente passaram para o seu filho, Dom Afonso Henriques. Mas então, qual a ligação desta lenda com a visita em curso?

A empresa Carlos Sousa (CPS) é produtora do Vinho Medieval de Ourém DOC das Encostas D’Aire. A história alternativa com ligação à linhagem merovíngia contém uma ligação prática: o valor de um produto não reside apenas na sua composição, mas também nas histórias que o envolvem e na forma como se relaciona culturalmente com as pessoas que o produzem. Neste caso, Luís Sousa vai buscar as tradições comunitárias cristãs para revelar os valores que esta empresa familiar também emprega nos vinhos de produz: um produto que respeita o espaço onde é criado e que serve de base à vivência comunitária das pessoas que o produzem.

“Foi a partir do Mosteiro de Alcobaça, um dos mais importantes centros religiosos e políticos do mundo católico, que os monges da Ordem de Cister concretizaram uma autêntica revolução na agricultura no território nacional e no modo de fazer vinho”, é referido no episódio 4 do documentário da RTP “Vinhos com História”. Este documentário explica a história do vinho medieval cisterciense abrangendo a produção Carlos Sousa.

A empresa ficou com o nome do patriarca que a fundou, Carlos Sousa (CPS). Hoje são os três filhos que gerem o negócio da família, motivados pela paixão de dar continuidade à tradição de família, uma vez que todos eles mantêm outras ocupações profissionais.

Novamente, também esta produção tem equivalências aos projetos apoiados pelo Caquetá Eco na Colômbia. A empresa tem uma base familiar, e as vinhas seguem uma produção biológica, de valorização da qualidade do produto. Luís Sousa explicou a importância do clima nestas vinhas, influenciadas pelas encostas da serra e pelas nortadas que vêm da costa Atlântica a cerca de 50 km de distância.

Este vinho, apesar de baseado em práticas social e ambientalmente sustentáveis, noções bem contemporâneas, é na verdade fabricado seguindo as tradições ancestrais, graças ao empenho de produtores como a família Sousa, mostrando que é possível aliar tradição a inovação.

Após a visita à adega, e para dar força para o resto da excursão, bem como para refrescar do intenso sol que ao meio-dia incidia sobre as folhas das videiras e sobre os braços da comitiva, teve lugar a sessão de degustação, numa mesa recheada dos diferentes vinhos e espumantes da casa Carlos Sousa, queijos, enchidos e pão rústico.

  • FRUBAÇA – Cooperativa de Hortofruticultores, Crl

À tarde, a carrinha Peugeot seguiu rumo à maior cooperativa do Oeste[3]. A Frubaça, Cooperativa de HortoFruticultores, sedeada em Alcobaça, dedica-se à produção, transformação e comércio de frutas, sendo ainda conhecida pela marca Copa, cujas lojas de madeira atuam como imagem de marca. Mas é nos sumos de fruta naturais e na vasta e variada gama de produtos feitos sobretudo a partir da Maçã de Alcobaça IGP que a empresa se edificou.

Segundo o estudo realizado por Eduardo Cardoso e Edna Neves para a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), em 2022, a Frubaça “gerou um volume de negócios de 29,65 milhões de euros, o que a tornou a 19.ª maior cooperativa do país”. Emprega 278 pessoas, “a maioria mulheres (61,2%) e com uma base de emprego jovem de 12,9%, o quarto maior na lista”. Acresce que é “a sexta maior empregadora das 100 maiores cooperativas do país e a que mais emprega” nas cooperativas do Oeste que integram esse estudo.

A delegação foi recebida no gabinete do sócio-gerente e diretor técnico, Jorge Piriquito. Numa conversa pautada pela cordialidade e o desejo sincero de ajudar estas jovens cooperativas colombianas, foram partilhadas lições acerca das etapas iniciais da construção da Frubaça, com enfoque no modelo de governação adotado. No início, foi difícil encontrar associados, hoje são muitos os que batem à porta para se poderem juntar à cooperativa, que mantém o mesmo núcleo associativo desde a sua fundação.

O ex-libris da visita foi a demonstração da tecnologia de hiperpressão a frio (HPP) para os sumos e a produção de shots de gengibre. Munidos de EPIs, a Delegação visitou as instalações fabris e experimentaram os shots de sumo de gengibre que tanto dizem ao consumidor britânico.

Jorge Piriquito, levou a delegação à unidade de inovação e desenvolvimento onde testam frutas, incluindo tropicais, para novos produtos, ou novas combinações de sabores.

Após provar os produtos que generosamente foram dispostos na mesa de reuniões do Diretor Técnico da cooperativa, a comitiva não resistiu a uma visita e compras pessoais na loja COPA situada dentro das premissas da fábrica, percebendo na prática que a loja atua como extensão das práticas comerciais e da identidade da empresa.

Jorge Piriquito foi desafiado a visitar as cooperativas em Caquetá, e este retribuiu com um desafio: qual o interesse e capacidade para desenvolverem as fileiras do gengibre e da curcuma? Pergunta que irá ser analisada pelas representantes das cooperativas.

Finda a vista a Frubaça a delegação regressa a Lisboa para o Fórum Internacional que decorreria no dia 2 de junho.

  • Melgão – cacau e chocolates

Dois dias depois, a 3 de junho, a delegação acrescida de um 8.º elemento da parte do IMVF deslocou-se a Montemor-o-Novo para visitar a Melgão.

António Melgão, mestre chocolateiro, pasteleiro de formação, recebeu a comitiva na antiga estação ferrovial de Montemor-o-Novo, transformada agora numa fábrica de chocolate. Explicou que como pasteleiro usava muito o chocolate na doçaria que produzia. Procurava as marcas de chocolate para pastelaria e restauração com maior prestígio nesse setor, o que o levava a importar de França. Sem ter pensado nisso, aos poucos, torna-se representante da marca Valrhona em Portugal. Daí a se tornar um mestre chocolateiro foi um pequeno passo, sustentado nas muitas leituras e formações que realizou, como fez questão de mostrar, na biblioteca instalada na copa de serventia aos colaboradores.

Melgão explicou que o seu chocolate é «Bean-To-Bar», uma técnica que assenta num cuidadoso processo de seleção do cacau, escolhendo aqueles que são de alta qualidade, e no cuidado em todas as etapas até se transformar numa barra de chocolate.

Hoje vende 22 milhões de bombons de chocolate à TAP Air Portugal que são oferecidos nas refeições na classe económica, em unidoses, e na executiva em caixas. O seu chocolate distingue-se por ser biológico, vegan, certificado pela Rain Forest Alliance. Adquire cacau em São Tomé e Príncipe, bem como no Peru.

Levou a delegação para a sua unidade experimental, e deu a provar diferentes chocolates, com diferentes origens. Foi nessa ocasião que provou o chocolate da ChocoAmazonic: num momento de grande cumplicidade, Melgão provou um pedaço da tablete produzida pelas mãos colombianas do outro lado do oceano. 16 pares de olhos ativeram-se sem pestanejar durante os parcos segundos que pareceram minutos pelo veredicto que provocaria o gáudio: gostou e mostrou-se disponível para, no futuro, vir a integrar o cacau da ChocoAmazónic na sua produção, validando a aposta colombiana na rastreabilidade da floresta em pé.

Deu várias dicas à sua representante, Yina Bailón, designadamente na área dos bombons. Conduziu a delegação pela fábrica sem receios de mostrar como consegue um produto de excelência, desde o armazém de matérias-primas, à unidade fabril, passando pelos jovens colaboradores ativos no processo de embalamento de mais uma remessa de produtos para a TAP. Aos poucos, colocou Montemor-o-Novo na rota de um dos melhores chocolates made in Portugal!

  • Fragoleto e Fragogel 

Por fim, a última visita empresarial, desta feita à fábrica Fragogel sedeada na freguesia da Pontinha, Concelho de Odivelas. No dia 5 de junho, a Delegação visitou a fábrica que produz os gelados da Fragoleto, a primeira gelataria portuguesa com certificação biológica. A funcionar com apenas uma loja sita na baixa de Lisboa, atualmente no n.º 15 da Rua do Comércio, continua a provar que a inovação com ingredientes naturais é a porta de entrada para o exigente consumidor europeu.

Manuela, anterior proprietária, e ainda sócia-gerente, porém atualmente com a maioria do capital assegurada por empresários colombianos, fundou a empresa há 22 anos. Explicou que na ocasião procurou uma inversão de carreira. Partiu para Itália e formou-se nas melhores gelatarias à época. Regressou a Portugal e criou, em 2004, a Fragoleto. Em 2014 dava um novo passo na sua afirmação no mercado:  é a primeira gelataria com a certificação de produção biológica.

“Transformamos as matérias-primas escolhidas cuidadosamente num gelado único, com a missão de proporcionar-lhe momentos de felicidades”, lemos na página da empresa. E é exatamente isso que a comitiva experiencia ao provar alguns dos sabores disponíveis na fábrica, após a visita às instalações.

Mas a surpresa vem quando um dos sócios-gerentes, Carlos, natural da Colômbia, assume que detém a maioria da quota e quer, inclusive, dar um passo para a aquisição de uma fábrica de chocolate. E, como colombiano, quer apoiar as dinâmicas construídas pelo projeto Caquetá Eco. Revela-se conhecedor do projeto, dos parceiros, a começar no Instituto Marquês de Valle Flôr, e da Red Adelco, parceiro local. E vai mais longe: estão disponíveis para adquirir 75 kg de cacau em pó até ao final de 2026.

Yina Bailón responde afirmativamente ao desafio, dizendo que será necessário readquirir uma máquina com mais capacidade para esse efeito, mas que darão esse passo, e desafia os sócios-gerentes a visitarem o Departamento de Caquetá, para conhecerem os produtores, individualmente, mas também as instalações da ChocoAmazónic.

Manuela, fundadora da Fragoleto, refere que serve aos seus clientes “a bebida dos deuses num gelado”. Mas agora que o cacau colombiano ganhou o prémio de melhor do mundo[4], lugar que normalmente é atribuído ao seu vizinho Equador, as deusas e deuses de Caquetá, produtores e mulheres empreendedoras, querem ver o seu cacau tornado em gelado para que os portugueses o conheçam e dele desfrutem.

Fórum Internacional da Amazónia e Biodiversidade – 2 de junho

Mais do que uma simples mostra de produtos, este foi o cenário do Fórum Internacional “Amazónia e Biodiversidade: Energia Verde, Desenvolvimento Sustentável e Paz na Amazónia Colombiana”. O evento de 2 de junho reuniu cerca de 50 participantes — entre empresários, académicos, diplomatas e representantes da sociedade civil — para assinalar uma década de esforços conjuntos na transformação do departamento de Caquetá, outrora epicentro do conflito armado e do cultivo de ilícitos, num território de paz, conservação ambiental e inovação económica.

Promovido pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Rede Nacional de Agências de Desenvolvimento Local da Colômbia (Red Adelco), com o apoio da Embaixada de Portugal na Colômbia e da Embaixada da Colômbia em Portugal, e financiamento do Camões, I.P., o fórum estruturou-se em torno de três eixos fundamentais: Oportunidades de Investimento e Internacionalização; Empreendedorismo Social para a Paz; e Amazónia, Energia Verde e Resiliência Climática. No final, as mulheres representantes das comunidades caquetenhas contagiam todo o auditório com as suas histórias de resiliência e prática da teoria da mudança.

A narração completa sobre o evento pode ser lida aqui, e uma análise sintetizada aqui.

A Feira Nacional de Agricultura e um símbolo da paz

No sábado 6 de junho, a bordo de uma Mercedes-Benz Vito Tourer alugada no aeroporto, a comitiva visita a 26.ª Feira Nacional de Agricultura (FNA26), em Santarém. Os números do certame espelham a sua relevância: a feira encerrou com 180.000 visitantes e um balanço de “bons negócios”, nas palavras de Luís Mira, da CAP. A delegação partilhou o recinto com a Ministra do Ambiente, evento este que seria posteriormente visitado pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da República.

O foco nos “Pequenos Frutos” e a forte presença de maquinaria agrícola deram às cooperativas ideias imediatas para as suas próprias unidades de transformação. Reencontraram a loja COPA, da Frubaça, no recinto, e puderam ver soluções criativas de embalagens e rotulagens para a apresentação dos produtos, formas de organização de lojas e de stands expositivos, bem como ver empresas de cosmética com produtos naturais, como o mel. Obviamente, tratando-se do último dia antes da longa viagem de regresso, também uma boa ocasião para adquirir bons produtos alimentares portugueses.

Mais a norte, para quem vem de um contexto de uma paz frágil, desafiante, como a que se vive em Caquetá, a missão terminou em bom porto com a visita ao fragmento do Muro de Berlim, doado pelo papa João Paulo II ao Santuário de Fátima. Este símbolo máximo de uma divisão entre nações e violência caiu em 1989 e, vinte e sete anos depois, em 2016, seria a Colômbia a beneficiar, no seu contexto endógeno, dos seus próprios acordos de paz. A paz, tal como a floresta, exige que se derrubem barreiras e construam laços em torno de negócios mais sustentáveis.

Rescaldo da missão

Num programa transmitido pelo Canal TV5 Somos Region, um canal digital de Florência, capital do Departamento de Caquetá, no Sul da Colômbia, emitido a 14 de junho de 2026, Yina Bailón da empresa ChocoAmazonic e Sandra Gonzalez (Betsy) gestora da Asmupropaz – Associação de Mulheres Produtoras da Paz e da Coombuvipac – Cooperativa Multiactiva para el Buen Vivir y la Paz del Caquetá fazem o rescaldo da missão empresarial e intercâmbio a Portugal. A entrevista e o artigo estão disponíveis aqui.

Esta missão empresarial produziu resultados tangíveis e compromissos estruturantes que garantem a sua continuidade:

  1. Acordos comerciais: Durante a reunião B2B, com a gelataria Fragoleto ficou em processo de formalização a encomenda de 75 kg de cacau em pó à cooperativa ChocoAmazonic. Paralelamente, o mestre chocolateiro António Melgão, após provar o chocolate da ChocoAmazonic, manifestou a sua disponibilidade para vir a integrar cacau de Caquetá na sua produção futura.
  2. Novas linhas de produção e parcerias: Jorge Piriquito da Frubaça lançou o desafio para a produção de gengibre e curcuma. Tanto António Melgão, como Jorge Piriquito e sobretudo os sócios-gerentes da Fragoleto manifestaram interesse em realizar uma missão exploratória a Caquetá em meados de 2027.
  3. Acordo Cidade Verde: também no quadro da missão foi discutido e partilhado um Memorando de Entendimento sobre o Acordo Cidade Verde com a Câmara Municipal de Oeiras. Este documento visa formalizar a troca de experiências entre as estratégias de sustentabilidade do município e as práticas de bioeconomia e conservação florestal do projeto Caquetá Eco.

Um futuro promissor

Ao longo de cerca de 900 quilómetros percorridos entre Lisboa, Golegã, Ourém, Alcobaça, Montemor-o-Novo, Odivelas, Santarém e Fátima, esta missão empresarial provou que a esperança é de facto capaz de transformar a cicatriz da guerra no ouro verde da Amazónia.

E, enquanto o avião levanta voo de regresso a Bogotá, permanece a certeza de que, tal como diz a canção que embalou as deslocações passadas: “Soñé otro mundo, tan lejos y tan cerca… Lo conseguí soñando, lo conseguí luchando”. A comitiva partiu tendo aprendido mais sobre certificações e mercados de nicho, sobre marcas com história ou a história que sedimenta uma marca, novas fileiras com procura nos mercados europeus, potenciais negócios. Enfim, partem com a alma cheia de um mundo que já não é apenas um sonho.

“De aquí, yo no me voy sin haber vivido / Voy a gozar la vida mientras respiro / Contar historias y no tiempo perdido”.

A Amazónia colombiana tem, agora, um aliado ainda mais estratégico em Portugal. Todo llegará.

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Equipamento_de_prote%C3%A7%C3%A3o_individual

[2] https://www.espaco-visual.pt/o-que-e-a-agricultura-sintropica/

[3] https://gazetadascaldas.pt/economia/frubaca-e-a-maior-cooperativa-do-oeste-e-entrou-no-top-20-do-pais/

[4] https://www.foodnewslatam.com/paises/77-colombia/17853-el-cacao-colombiano-lleva-a-alimentec-el-concurso-de-chocolate-m%C3%A1s-prestigioso-del-mundo.html

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