
Durante dez dias, o Lab Residencial de Ativismo e Ação Comunitária, implementado pelo IMVF, AIDGLOBAL e Clube de Lisboa, reuniu jovens, ativistas, educadores e especialistas num percurso intensivo de aprendizagem, reflexão e participação. Entre 17 e 26 de julho, o grupo explorou temas como justiça social e climática, direitos humanos, democracia, ecofeminismo, ativismo, sistemas alimentares, comunicação para causas e intervenção comunitária, culminando na criação de propostas concretas e compromissos para continuar a agir nos seus territórios.
Concebido como uma viagem “da semente à colheita”, o Lab Residencial de Ativismo e Ação Comunitária partiu da ideia de que a transformação social e ambiental, tal como uma planta, necessita de tempo, cuidado, raízes, estrutura e condições para crescer. Cada dia do programa correspondeu, assim, a uma etapa simbólica desse processo: A Semente, A Terra, As Raízes, A Água, O Caule, As Folhas, A Flor, O Fruto, A Colheita e Novas Sementes.
Esta abordagem permitiu articular o desenvolvimento pessoal dos participantes com a compreensão dos desafios globais e locais, a aquisição de ferramentas práticas e a preparação de ações capazes de produzir mudanças nas comunidades.
Mais do que uma formação convencional, o Lab foi pensado como um espaço residencial de convivência, experimentação e construção coletiva, no qual os jovens puderam questionar o mundo em que vivem, identificar as causas que os mobilizam e descobrir diferentes formas de participação cívica, política, cultural e comunitária. Foi também uma verdadeira sinergia entre 3 projetos de Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global, o projeto Jovens 2030. Mobilizar para agir (IMVF), o projeto Human II – A Tua Voz, A Tua Ação (Clube de Lisboa e IMVF) e o projeto Ecoality (AIDGLOBAL) demonstrando que a cooperação entre projetos é valorizada pelas organizações parceiras.
Da criação do grupo à identificação das causas
O primeiro dia, simbolicamente designado “A Semente”, foi dedicado ao acolhimento e à criação de um ambiente de confiança entre os participantes. Através de dinâmicas como “a semente que trago”, do mural de expectativas, da definição de um acordo coletivo de convivência e de uma roda de partilha sobre as causas que moviam cada pessoa, o grupo começou a construir uma identidade comum. Foi também o dia dos participantes conhecerem os ativistas e dinamizadores residentes do Lab, nomeadamente a Mourana Monteiro, O Frederico Carreiro e Afonso Soares, que se juntaram às equipas técnicas dos projetos para dinamizar as atividades e reflexões do Lab.
Compreender o contexto para poder transformá-lo
No segundo dia, “A Terra”, procurámos responder à pergunta: em que mundo estamos a tentar crescer? Começamos por introduzir alguns dos grandes desafios contemporâneos e a ativista Mourana Monteiro dinamizou o primeito workshop do Lab” Crise Climática e Advocacia, dinamizado por Mourana Monteiro. A atividade permitiu compreender que as alterações climáticas não constituem apenas um problema ambiental, estando profundamente ligadas às desigualdades sociais, económicas e territoriais.
Também neste dia , os participantes exploraram o potencial do artivismo através de uma oficina de poesia visual e colagens, dinamizada por Sara Daniel, e trabalharam ferramentas de organização de campanhas, comunicação para causas e storytelling com Bárbara Marques , da Don’t Skip Humanity.

Direitos humanos, democracia e consciência crítica
No terceiro dia do Lab, “As Raízes”, o foco foramos valores, a identidade e a consciência crítica que sustentam o ativismo.
Através de um workshop sobre Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global e Direitos Humanos, dinamizado por Ana Teresa Santos, os jovens aprofundaram a interligação entre problemas locais e globais e refletiram sobre o papel de cada pessoa na promoção de sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis. A cocriação da definição de cidadania global e o reforço do conhecimento sobre Direitos Humanos, permitiu aos jovens enraizarem-se de forma mais estável nos temas em discussão.

As metodologias participativas utilizadas procuraram evitar uma transmissão passiva de conhecimentos, colocando os participantes no centro da aprendizagem.
O dia incluiu ainda uma atividade de artivismo e um workshop sobre Movimentos Sociais, Autoritarismo e Democracia, orientado por Frederico Carreiro. Num contexto de crescentes tensões sociais e democráticas, a sessão permitiu discutir o papel histórico e atual dos movimentos sociais, os riscos associados ao autoritarismo e a importância da participação política informada.
Para Frederico Carreiro, ativista político, dirigente associativo, youth worker e educador comunitário, o encontro foi marcado por “dias cheios de ideias, motivação e esperança”, capazes de renovar a energia necessária para “continuar a transformar o mundo e as nossas comunidades”.

Cuidar para continuar a agir
O ativismo exige energia, persistência e disponibilidade emocional, mas pode também gerar desgaste, frustração e cansaço. Por essa razão, o dia “A Água” foi dedicado ao cuidado, à escuta e à comunidade.
Um workshop sobre Ativismo e Saúde Mental, dinamizado por Mourana Monteiro, colocou em evidência a importância de reconhecer limites, construir redes de apoio e promover formas de participação sustentáveis. A mensagem central foi clara: não é possível cuidar das comunidades sem cuidar também de quem atua pela mudança.
O programa integrou igualmente uma oficina de pins e a exploração de uma exposição gamificada do projeto Jovens 2030, combinando aprendizagem, comunicação visual e criatividade.

Na Costa da Caparica, uma atividade de escrita criativa, representação e surf, dinamizada pela Somos Maré, proporcionou uma abordagem diferente ao trabalho coletivo. O contacto com o mar, o movimento e a expressão artística reforçaram a relação entre bem-estar, confiança e cooperação.

Organização, liderança e ação coletiva
Em “O Caule”, os participantes começaram a trabalhar ferramentas mais diretamente relacionadas com a organização e a estratégia.
Um passeio dos Gigantes Verdes, promovido pela Associação VERDE, convidou o grupo a observar o território e a reconhecer a importância das árvores, dos espaços verdes e da biodiversidade urbana.
O workshop sobre Empreendedorismo no Feminino, dinamizado por Nicole Antunes, coordenadora de projetos da Fundação Eugénio de Almeida, abordou a iniciativa, a autonomia e a capacidade de transformar ideias em projetos.
Nicole Antunes sublinhou o poder da educação, da reflexão e dos exemplos inspiradores na formação de uma geração mais consciente.
Esta é aliás uma das ideias centrais do Lab: a participação não deve limitar-se a responder a problemas imediatos, devendo também aumentar a capacidade dos jovens para tomar decisões, definir prioridades e construir os seus próprios percursos.
A comunidade como espaço de aprendizagem e intervenção
O dia dedicado a “As Folhas” marcou a abertura do processo ao exterior, à comunidade.
A visita à exposição ANTROPO(CÉNICO) no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa permitiu aos jovens refletir de forma mais cuidada sobre o impacto da atividade humana no planeta, e como esse impato se tem intensificado desde a Agricultura à Revolução Industrial e no pós II Guerra Mundial.

E porque falamos em impactos na comunidade, a dinamização de atividades de educação não formal sobre ecofeminismo também apoiaram os jovens na compreensão de que os desafios ambientais não podem ser separados das relações sociais, das desigualdades de género, da organização económica e das diferentes formas de acesso aos recursos.
O ecofeminismo surgiu, assim, como uma perspetiva capaz de relacionar a exploração da natureza com outras formas de dominação e exclusão, incentivando uma reflexão crítica sobre modelos de desenvolvimento, produção e consumo.
Ainda neste dia os jovens foram convidados a realizar o curso (gratuito), Solos Vivos — Jovens 2030”, uma proposta formativa que explora o papel central dos solos nos desafios do presente e do futuro.
O curso reúne quatro módulos: Solos e Alterações Climáticas, com Ayala Botto; Solos e Alimentação, gravado por Sofia Magalhães (Blog da Spice), Solos e Consumo, com Bárbara Marques, e Solos e Ocupação Territorial, de autoria da Carolina Salgueiro Pereira. Ao longo destes conteúdos, são abordadas as ligações entre solo, sustentabilidade, alimentação e padrões de consumo, convidando à reflexão sobre o impacto das nossas escolhas no planeta.
Comunicar causas e dar visibilidade a diferentes vozes
Na etapa “A Flor”, procuramos dar ênfase à comunicação de causas e da importância de dar visibilidade a diferentes vozes.
Num workshop sobre Storytelling e Redes Sociais, dinamizado por Cátia Ramos, da Associação Juvenil Bué Fixe, os participantes exploraram formas de comunicar causas de maneira acessível, mobilizadora e responsável. Num contexto em que grande parte do debate público ocorre através das redes sociais, tornou-se particularmente importante discutir não apenas o alcance das mensagens, mas também a sua qualidade, intenção e impacto.

Seguiu-se um workshop para a preparação de uma carta de compromisso coocriada por todos os participantes, e que em breve iremos divulgar. A escrita coletiva permitiu organizar ideias, identificar reivindicações e transformar preocupações dispersas numa mensagem política comum.
Explorámos também uma nova atividade do projeto Jovens 20930, as Cartas Mulheres Ativistas, que dão ainda mais visibilidade ao contributo de mulheres que marcaram diferentes lutas sociais e políticas, mostrando a importância das referências e dos exemplos inspiradores na construção da consciência cidadã.

A reflexão estendeu-se ainda aos sistemas alimentares, através do workshop de comida vegetariana “A comida é política”, dinamizado por Francisca Gusmão, da Kind Dish que destacou a oportunidade proporcionada pelo Lab para discutir “o impacto e as deficiências dos sistemas alimentares”, colocando o foco na produção agropecuária e nos seus impactos profundos no planeta e na sociedade.

Durante a atividade, a preparação coletiva de alimentos serviu como ponto de partida para analisar todo o sistema alimentar: a origem dos produtos, os métodos de produção, as condições laborais, o consumo de recursos naturais, o desperdício e as consequências sociais e ambientais das escolhas alimentares.
Da reflexão à criação de propostas
Nos dias dedicados a “O Fruto” e “A Colheita”, as aprendizagens acumuladas foram orientadas para a ação concreta.
Na sexta-feira, dia 25 de julho, os jovens apresentaram as principais ideias da Carta de Compromisso a três convidados externos: a chefe da Divisão da Juventude da Câmara Municipal de Loures, Dra. Filipa Miranda; a gestora de projetos da FEC, Dra. Catarina António; e o gestor de projetos da Oikos, José Luís Monteiro. A presença da Câmara Municipal de Loures foi particularmente relevante pelo trabalho de proximidade que desenvolve com os jovens e pela sua capacidade de integrar e dar continuidade, a nível local, às preocupações e propostas apresentadas. Já a participação da FEC e da Oikos assumiu especial importância por ambas as organizações estarem representadas na próxima COP31, podendo levar a este espaço internacional algumas das preocupações, propostas e recomendações expressas pelos jovens.

Através do processo ECOPÓLIS, os jovens trabalharam no desenvolvimento de duas propostas de ação , em sessões que combinaram debate, participação, criatividade e tomada coletiva de decisões. Com o apoio de Constança Viegas, produziram zines, cartazes e outras ferramentas participativas, capazes de comunicar ideias e envolver diferentes públicos.
As propostas foram discutidas e submetidas a votação, permitindo aos participantes experimentar processos democráticos de deliberação, negociação e escolha.

Estes momentos foram acompanhados por Assembleias de Jovens, que funcionaram durante todo o Lab como espaços regulares de escuta, avaliação e sistematização. Neles, o grupo pôde partilhar dúvidas, aprendizagens, emoções e sugestões para os dias seguintes.
A participação dos jovens não foi, desta forma, limitada às atividades previamente definidas. O próprio funcionamento do campo procurou incorporar as suas perspetivas e criar oportunidades para que influenciassem o processo.
Esta perspetiva atravessou todo o programa: os especialistas e dinamizadores contribuíram com experiências e ferramentas, mas também foram desafiados pelas perguntas, visões e formas de participação dos jovens.
Os diferentes testemunhos convergem na valorização do Lab como espaço de educação, esperança e construção de comunidade. O Lab Residencial de Ativismo e Ação Comunitária terminou, assim, não como um ponto final, mas como o início de novos processos.
Num tempo marcado por crises climáticas, sociais e democráticas, o Lab mostrou que a participação juvenil necessita de espaços seguros, metodologias participativas e oportunidades reais de decisão. Mostrou também que a esperança não é apenas um sentimento: pode ser construída coletivamente através da educação, da organização e da ação comunitária.