
Quem somos?
Somos jovens de diferentes origens, territórios, géneros, corpos e histórias. Vivemos no litoral e no interior, estudamos, trabalhamos, cuidamos e sonhamos. Herdámos uma crise climática que não criámos — mas recusamos herdá-la em silêncio.
As causas naturais explicam apenas uma pequena parte das alterações climáticas. O que hoje sabemos é que a emergência climática é resultado de escolhas humanas: desflorestação, agricultura intensiva, produção e consumo excessivos, dependência dos combustíveis fósseis. E se foram escolhas, podem ser mudadas.
Escrevemos este manifesto porque a crise climática, que é também uma crise social, não nos atinge a todas e a todos por igual. E, porque se estamos empenhadas/os em não deixar ninguém para trás, temos de agir.
Porque falamos de interseccionalidade?
A crise climática cruza-se com outras desigualdades. Quem já vive à margem sofre primeiro e sofre mais: pessoas racializadas, comunidades queer, mulheres, pessoas migrantes, pessoas com diversidade funcional, pessoas em carência socioeconómica, crianças, jovens e idosos.
Uma inundação não é igual para quem tem casa e para quem vive na rua. Uma onda de calor não é igual para quem tem ar condicionado e para quem vive em pobreza energética. Um aterro não é construído ao acaso: é colocado junto das comunidades com menos poder para dizer não. Chama-se racismo ambiental, e existe.
Por isso, cada solução que defendemos tem de responder a uma pergunta: quem beneficia e quem paga o custo? Rejeitamos soluções tecnocráticas irrealistas, cujos riscos não conhecemos, que adiam a ação e esquecem as pessoas.
Os nossos princípios
- Justiça climática é justiça social. Não aceitamos uma transição que deixe alguém para trás.
- Quem é mais afetado decide primeiro. As comunidades marginalizadas têm de estar no centro das decisões, não na margem.
- Participação significativa, não decorativa. Ser consultado não chega. Queremos influenciar decisões e receber resposta.
- Cuidado e ecofeminismo. Cuidar das pessoas e cuidar do planeta são a mesma luta;
- Soluções reais e comunitárias. Preferimos o que funciona hoje, perto das pessoas, ao que promete milagres amanhã.
- Cumprir a lei que já existe. A impunidade perante o direito nacional e internacional tem de acabar.
- Informação é poder. Combatemos a desinformação, o autoritarismo e o greenwashing.
O que exigimos
Juventude e educação
- Uma Assembleia Nacional de Estudantes, ouvida todos os anos na Assembleia da República;
- Uma plataforma nacional para propostas jovens, com resposta obrigatória por parte dos decisores;
- Uma manhã ou tarde livre comum nos horários escolares para participação cívica e reuniões gerais de alunos;
- Democracia nas escolas: apoio às associações de estudantes, referendos escolares, voz nas decisões que nos afetam;
- Literacia para a Cidadania Global transversal a todas as disciplinas, formação de docentes e disponibilização dos manuais e guias que tratem as múltiplas temáticas da justiça social e climática e que aprofundam o pensamento critico, a empatia e o reconhecimento das diferentes formas de discriminação;
- Apoio real a estudantes com necessidades educativas específicas e centros móveis de aprendizagem em zonas rurais;
- Mais financiamento para associações juvenis, espaços verdes e salas de bem-estar nas escolas.
Fim do desperdício
- Uma lei contra o desperdício alimentar nas cantinas públicas e a proibição de descartar alimentos por razões estéticas;
- Doação alimentar facilitada para grandes superfícies, restaurantes e hotéis;
- Estratégias e métricas que incentivem o direito à reparação;
- Um imposto sobre o volume de peças têxteis desperdiçadas pela indústria;
- Nenhuma “zona de sacrifício”: acabar com a acumulação de resíduos junto de comunidades marginalizadas;
- Regulação do consumo de água e energia dos centros de dados de Inteligência Artificial.
Alimentação como direito
- Promover estratégias claras e eficientes para garantir o Direito Humano à alimentação;
- Aposta na promoção de cozinhas, cantinas e hortas comunitárias;
- Revisão do IVA dos bens alimentares e aumento do Rendimento Social de Inserção;
- Apoio a pequenos agricultores, cooperativas, mercados locais e jovens agricultores no interior.
Cidades e territórios resilientes
- Identificação das pessoas e áreas mais afetadas, com metas e calendário concretos;
- Refúgios climáticos, corredores verdes, telhados verdes e bacias de retenção de cheias;
- Sistemas de alerta, simulacros regulares e saneamento digno;
- Proteção das pessoas em situação de sem-abrigo e fim da arquitetura hostil.
Ambiente, energia, indústria e mobilidade justas
- Uma transição energética justa e célere, sem precariedade nem exploração laboral;
- Políticas climáticas inclusivas, que considerem os impactos diferenciados das alterações climáticas nas comunidades mais vulnerabilizadas;
- Participação efetiva e representativa de jovens, mulheres, pessoas racializadas, pessoas migrantes, comunidades LGBTQIA+, pessoas com deficiência e populações de territórios marginalizados nas decisões ambientais;
- Fiscalização rigorosa das normas ambientais, da pesca intensiva e das áreas protegidas;
- Combate à pobreza energética.
- Passe de transportes gratuito alargado a mais pessoas e territórios, com mais ligações e horários;
- Fixação no interior através de serviços públicos, transportes e proteção do teletrabalho;
- Regras mais exigentes para o turismo massificado e atividades que destroem a biodiversidade.
Saúde para todas as pessoas
- Investimento no Serviço Nacional de Saúde: mais profissionais, melhores condições e cuidados de proximidade no interior;
- Fim do racismo, do machismo e de todas as formas de discriminação no acesso à saúde;
- Saúde mental integrada e acessível;
- Monitorização da qualidade do ar, zonas-tampão junto a indústrias e campanhas sobre calor e doença.
O que nos comprometemos a fazer
Não exigimos apenas aos outros. Comprometemo-nos a:
- Não ficar indiferentes perante qualquer injustiça;
- Informar-nos e informar: combater notícias falsas junto de amigos e família, dinamizar workshops, redes sociais e uma revista escolar;
- Organizar-nos: integrar associações e ONG, liderar projetos, criar parcerias e apelar ao voluntariado;
- Agir no terreno: limpezas de praias, plantação de árvores, manifestações, greves e petições;
- Consumir de forma consciente: dieta flexitariana, roupa em segunda mão, menos descartáveis e boicote a marcas que violam direitos humanos e ambientais;
- Poupar recursos: reduzir o consumo de energia e água, separar resíduos, fazer compostagem e preferir transportes coletivos.
Junta-te a nós
Este manifesto não termina aqui. Os próximos passos são:
- Campanha digital para chegar junto de mais pessoas, dialogar e agir.
- Pressão política junto de decisores locais, nacionais e internacionais.
- Protestos para mostrar que somos muitas e muitos.
- Assembleia online aberta a todas as pessoas, e em particular aos jovens afastados das definições das políticas públicas, e que queiram coconstruir connosco.
Não somos o futuro. Somos o presente. E o presente é de todas as pessoas — ou não será de ninguém.
Júnio de Sousa Jardim
Maria Luíza Alves de Oliveira
Mateus Duque
Maria Marques
Ricardo Cardoso
Tomás Viegas Martins
Alice Madeira
Bruna Maria
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Um Planeta, Muitas Realidades, Uma Justiça – Manifesto por uma Justiça Climática Interseccional
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Este manifesto surgiu da reflexão critica e do trabalho desenvolvido por 14 jovens no “Lab Ativismo e Ação Comunitária” organizado no âmbito dos projetos Jovens 2030. Mobilizar para Agir (IMVF) e Ecoality (AIDGLOBAL), cofinanciados pela UE e apoiados pelo Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, e pelo projeto Human II (Clube de Lisboa e IMVF), cofinanciado pelo Camões, Instituto da Cooperação e da Língua.
A ANIMAR também apoiou este Laboratório.