
Lisboa, 2 de junho de 2026 – No salão histórico da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), o aroma intenso do cacau fino misturou-se com o perfume cítrico do óleo essencial de canangucha (buriti). Mais do que uma simples mostra de produtos, este foi o cenário do Fórum Internacional “Amazónia e Biodiversidade: Energia Verde, Desenvolvimento Sustentável e Paz na Amazónia Colombiana”. O evento reuniu cerca de 50 participantes — entre empresários, académicos, diplomatas e representantes da sociedade civil — para assinalar uma década de esforços conjuntos na transformação do departamento de Caquetá, outrora epicentro do conflito armado e do cultivo de ilícitos, num território de paz, conservação ambiental e inovação económica.
Promovido pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Rede Nacional de Agências de Desenvolvimento Local da Colômbia (Red Adelco), com o apoio da Embaixada de Portugal na Colômbia e da Embaixada da Colômbia em Portugal, e financiamento do Camões, I.P., o fórum estruturou-se em torno de três eixos fundamentais: Oportunidades de Investimento e Internacionalização; Empreendedorismo Social para a Paz; e Amazónia, Energia Verde e Resiliência Climática. No final, as mulheres representantes das comunidades caquetenhas contagiam todo o auditório com as suas histórias de resiliência e prática da teoria da mudança.
Sessão de Abertura
A sessão de abertura estabeleceu o enquadramento estratégico do projeto Caquetá ECO, reunindo os principais impulsionadores desta cooperação bilateral. Florbela Paraíba, Presidente do Camões, I.P., sublinhou o papel central da Colômbia na preservação da Amazónia, classificando a iniciativa como “um exemplo de cooperação que envolve o setor público, privado e a sociedade civil”, alinhada com a transição verde justa e a conservação da biodiversidade.
Na mesma linha, o Embaixador da Colômbia em Portugal, Germán Grisales, reforçou a missão global do projeto, salientando que transformar um produto local num produto global exige inovação e adaptação cultural. “Não existem fórmulas únicas”, afirmou o diplomata, destacando a inclusão social, particularmente das mulheres, como um dos maiores desafios e conquistas deste processo.
Luís Vargas, da Red Adelco, afirmou que a paz se constrói a partir dos territórios, com oportunidades económicas reais. Lembrou que o projeto foi distinguido com um prémio pela Agência Presidencial de Cooperação Internacional da Colômbia (APC Colombia) em dezembro de 2025, reconhecendo-o como uma das melhores práticas do país.
Carolina Quina, Administradora Executiva do IMVF, definiu o projeto Caquetá ECO não apenas como uma iniciativa ambiental, mas como um instrumento de mitigação das alterações climáticas e de inclusão social, onde “a paz cria as condições para a conservação da floresta amazónica”.
Mulheres pela paz e empreendedorismo sustentável
O momento mais alto e comovente do fórum ocorreu durante o Painel 2, moderado pela jornalista Bárbara Reis, do Público. Três mulheres, líderes de cooperativas em Caquetá, partilharam as suas trajetórias de vida, desmontando estereótipos e demonstrando a viabilidade da bioeconomia.
Maria Daisy Bermeo, da Asmucoca, representando 220 famílias e 55 mulheres, falou da necessidade de uma “paz pessoal” como o primeiro passo para a reconciliação comunitária. Sandra Gonzalez, conhecida no passado como a ex-combatente “Betsy” e hoje líder da Asmupropaz e da Coombuvipac, identificou-se, sem medo, como “assinante do acordo de paz” de 2016, classificando a sua presença em Lisboa como “um sonho quase impossível”. Yina Bailón, da ChocoAmazonic, recordou a transição de uma “cultura paternalista” e de desconhecimento para uma realidade que levou Caquetá a figurar hoje entre os 10 maiores produtores de cacau da Colômbia.
Três conclusões se impõem:
- A valorização da biodiversidade: As líderes detalharam como a recuperação de áreas degradadas, antes usadas para cultivos ilícitos, deu lugar à produção de cacau e à exploração sustentável da canangucha. Daisy descreveu o óleo deste fruto como “ouro verde”, rico em antioxidantes e betacarotenos, já transformado em biocosmética e produtos alimentares, gerando valor acrescentado sem desflorestação.
- A transição energética como alívio económico: Betsy e Daisy ilustraram o impacto tangível da sustentabilidade. A chegada de 45 painéis solares às fábricas comunitárias (por unidade fabril, em média) resolveu um problema crítico: as faturas de eletricidade impagáveis que ameaçavam a viabilidade das cooperativas. Hoje, a produção é feita com energia verde, gerando um fluxo de caixa estável.
- Empoderamento feminino e coesão familiar: O projeto alterou dinâmicas de género profundas. Yina relatou o crescimento do envolvimento feminino de 28 para 60 mulheres, e Daisy celebrou o facto de os maridos, antes céticos, serem hoje “aliados e amigos”. O empoderamento económico permitiu ainda que várias mulheres, incluindo Daisy, aos 50 anos, regressassem à frequência universitária.
O clímax ocorreu quando Bárbara Reis questionou se imaginariam, no ano 2000, estar juntas à mesma mesa. O abraço entre Yina, Betsy e Daisy, anteriormente em lados opostos no conflito, serviu como a prova viva de que a reconciliação não só é possível, como já é uma realidade a ser construída no terreno.
Estratégia, Sustentabilidade e Novas Parcerias: A Síntese dos Painéis 1 e 3
No painel 1, o moderador Augusto Manuel Correia destacou a importância de criar valor através de produtos agroflorestais para promover atividades viáveis em territórios afetados pelo conflito. Laura Montoya Mejía, da ProColombia, sublinhou o enorme potencial premium do cacau colombiano e o crescimento de 79% das exportações para Portugal, reforçando que o desenvolvimento só é sustentável quando gera oportunidades para todos. Da AICEP, Rui Lourenço Pereira apontou o grande potencial de crescimento do investimento cruzado entre os dois países, lançando o repto para a retoma de voos diretos que facilitem estas ligações comerciais. Luís Matos Martins, da Mendes Gonçalves Ventures, defendeu que a gastronomia e a “economia do sabor” são ferramentas poderosas de transformação económica, mostrando total disponibilidade para construir parcerias com a Colômbia.
No painel 3, sobre a resiliência climática, o moderador André Castro Santos lembrou que a preservação ambiental e a transição energética estão profundamente interligadas, sendo a Amazónia um território decisivo para a resposta global às alterações climáticas. João Monteiro, do IMVF, alertou para a urgência de reverter a desflorestação e aumentar o financiamento privado para soluções baseadas na natureza, que atualmente representa apenas 10% do total global. Sandra Ortega, da Red Adelco, detalhou os três pilares do sucesso no terreno: acordos voluntários de conservação, a transição energética com painéis fotovoltaicos nas fábricas e o fortalecimento de modelos de negócios comunitários. Bernardo Sousa, da Câmara Municipal da Amadora, ilustrou como os desafios urbanos de densidade populacional se conectam com a Amazónia, propondo futuros intercâmbios educativos entre escolas dos dois países.
Para além dos debates estratégicos, o fórum proporcionou um momento cultural único com as notas da guitarra portuguesa de Francisco Pereira, servindo de ponte emocional antes de os participantes se dirigirem à mostra de produtos da Amazónia e às reuniões rápidas B2B (Speed Business Roundtables), onde o interesse pelos chocolates, polpas e cosméticos naturais foi evidente.
Compromissos para o futuro
Na sessão de encerramento, Patricia Medina González, Ministra Plenipotenciária da Embaixada da Colômbia em Portugal, sintetizou o espírito do dia, expressando em nome da Embaixada o agradecimento a todos que participaram nesta jornada de diálogo, intercâmbio e construção de alianças. “Hoje estamos a afirmar que a Amazónia é mais do que natureza excecional. É um espaço onde convergem alguns dos grandes desafios do nosso tempo: a proteção da biodiversidade, a ação climática, a transição energética, o bem-estar social e a construção da paz”, afirmou. O testemunho das quatro empresas sociais neste fórum mostrou, na sua visão, que é possível gerar desenvolvimento sustentável ao mesmo tempo que se fortalece a floresta e as comunidades locais, provando que a paz se constrói também criando oportunidades, impulsionando o empreendedorismo e gerindo os recursos de forma responsável, numa clara amostra do valor da cooperação entre Portugal e a Colômbia.
Luís Vargas, da Subdireção Técnica da RED ADELCO, salientou que o desafio agora é levar estas aprendizagens a uma escala maior e apelou ao compromisso para com o fortalecimento dos laços comerciais, da cooperação técnica e das alianças entre empresas, instituições e organizações comunitárias. “Este fórum não é apenas uma montra de produtos amazónicos, é um convite à construção de alianças de longo prazo para que a conservação, a energia limpa e a bioeconomia se traduzam em oportunidades concretas para as comunidades”, convidou, apelando à atenção para as mensagens subsequentes e conversas que surjam a partir do fórum.
Carolina Quina, Administradora Executiva do IMVF, destacou que este intercâmbio decorre no âmbito da missão empresarial, tendo já sido visitadas três empresas portuguesas. Agradeceu o apoio da Embaixada de Portugal na Colômbia, em particular da Embaixadora Catarina Arruda na organização do evento, juntamente com o apoio da Embaixada da Colômbia em Portugal, e ressaltou a parceria de excelência que vêm desenvolvendo com a Red Adelco, manifestando o desejo de continuar a colaborar no futuro. Quina agradeceu ainda ao Camões, I.P., o apoio que tornou possível este trajeto, trazendo a Portugal as representantes de quatro cooperativas que demonstraram resiliência e vontade de continuar a sonhar e a tornar reais os seus sonhos em prol do desenvolvimento local com respeito à biodiversidade, fazendo uma menção especial a Bárbara Reis pela forma como conduziu a conversa no painel 2.
Para uma leitura integral do que se passou no fórum, desde a bonita e pertinente conversa do painel 2, aqui sumarizada, bem como os detalhes dos restantes painéis, leia o artigo completo disponível aqui.
O projeto Caquetá ECO, é financiado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) e pela Rede Nacional de Agências de Desenvolvimento Local da Colômbia – Red Adelco, reafirmando o seu compromisso com a implementação de soluções inovadoras que promovam territórios sustentáveis, competitivos e em paz.