Entre 6 e 10 de agosto de 2026, Covas do Barroso, no concelho de Boticas, recebeu a 6.ª edição do Acampamento em Defesa do Barroso, promovido pela Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso. Durante cinco dias, a Quinta do Cruzeiro transformou-se num espaço de encontro entre habitantes, movimentos cívicos, associações e pessoas solidárias com o desenvolvimento sustentável da comunidade.
O programa juntou mais de 700 pessoas a conversas, workshops, cinema, espetáculos, música e uma ação de protesto contra a exploração mineira a céu aberto na região, projeto de exploração também contestado por moradores, autarcas e ambientalistas.
Mulheres, Barrosãs e Guardiãs da Terra
Um dos primeiros momentos do acampamento foi dedicado ao papel das mulheres na resistência aos projetos mineiros, dando voz a agricultoras e habitantes da região. Nos testemunhos, a defesa ambiental apareceu profundamente ligada à defesa da comunidade, da agricultura, da memória familiar e do direito de decidir sobre o futuro do território.

“Quero conservar conforme os meus pais e avós me deixaram”,
Afirmou Maria, agricultora de Barroso, enquanto outras participantes destacaram a indignação perante decisões tomadas sem o conhecimento ou consentimento das populações. Também Aida, agricultora e mãe, ao falar do projeto de mineração afirmou:
“Quando este projeto apareceu, o que senti foi indignação . Espanto de como isto podia estar a acontecer sem o nosso conhecimento”.
Sobre a força da sua luta diz ainda:
“Nunca se pôs a questão da minha sobrevivência , mas a sobrevivência do meu mundo.”

Já a sua prima, Catarina, educadora diz:
“Fui ciada com valores humanistas e ambientais. Acredito no que é justo e certo. E não é certo que as decisões sobre a sobrevivência e o futuro das pessoas sejam retiradas das suas mãos. (…) A nossa luta é pelas pessoas, pelo ambiente e pela justiça”.

A antiga presidente da junta de freguesia, Lúcia, relembra que entrou na luta em duplicado:
“Como antiga presidente da junta e por isso por eleição do povo , tinha que lutar Mas também porque acredito na luta, na minha comunidade. É aqui que quero estar, foi aqui que nasci, cresci e quero viver. “
O debate prosseguiu com a apresentação de outros projetos em território europeu muito similares, como na Sérvia, em que as populações também se estão a unir para garantir sustentabilidade, saúde e bem-estar.
A presença da Associação dos Ex-Trabalhadores das Minas de Urânio (ATMU) trouxe ao acampamento a memória dos impactos sociais e de saúde associados à atividade mineira. Os antigos trabalhadores recordaram as condições perigosas de trabalho e a forma como a contaminação podia chegar às próprias famílias através da roupa ou de materiais provenientes das minas.
“O nosso macacão era sacudido, lavado no tanque e a terra contaminada na nossa roupa, contaminou os nossos familiares. A madeira da mina, oferecida aos mineiros para aquecer, as casas e cozinhar …aquela brasa que assava a sardinha e as febras era lenha contaminada da mina, e por isso ingeria-se contaminação”
António Minhoto, antigo mineiro, ATMU.

Uma luta que atravessa todo o Barroso
Outro dos debates procurou responder à pergunta “Onde está a luta neste momento?”, reunindo diferentes movimentos e territórios. Foram abordados os projetos da Borralha, Morgade e Covas do Barroso, os possíveis impactos na água e na agricultura, a dificuldade de acesso à informação e a utilização dos mecanismos administrativos e judiciais pelas populações para contestar os projetos.

A oposição local ocorre, contudo, num contexto em que o lítio do Barroso ganhou crescente importância económica e estratégica.
“O Barroso não se vende”
Para os participantes no acampamento, porém, a discussão vai além da dimensão económica do lítio. Água, agricultura, território, património, participação democrática e continuidade das comunidades rurais estiveram no centro das intervenções. O próprio presidente da Câmara de Boticas, segundo as notas recolhidas durante o encontro, reiterou a oposição municipal ao projeto e defendeu que o desenvolvimento do concelho não depende da instalação da mina.

O acampamento terminou reforçando também uma ideia que atravessou vários debates: estas discussões e luta pelo desenvolvimento sustentável não pode ficar limitada às aldeias diretamente afetadas.
Participantes defenderam a criação de redes de solidariedade noutros pontos do país, incluindo núcleos urbanos capazes de informar, mobilizar e apoiar as comunidades do Barroso.
A ação de protesto voltou a levar para a rua uma palavra de ordem que resume o espírito destes cinco dias e que se tornou símbolo da mobilização local: “O Barroso não se vende, ama-se e defende-se.”
O Jovens 2030 é cofinanciado pela União Europeia e pelo Camões, I.P., e promove a inclusão, o empoderamento e a participação ativa dos jovens das zonas rurais para a justiça social e a justiça climática, capacitando-os para atuarem como agentes de mudança nas suas comunidades.








