
Vivemos um momento de profunda inflexão histórica. O Presidente da República, António José Seguro, assinalou recentemente o Dia Internacional da Paz expressando a sua perplexidade face a uma realidade difícil de entender: “Depois de todo o desenvolvimento e de toda a aprendizagem de um século, que foi o mais sangrento da história da humanidade, com duas guerras mundiais, regressam, de forma alarmante, o domínio da guerra e a lei do mais forte”.
O mais recente relatório Conflict Trends do Peace Research Institute Oslo (PRIO), revela uma mudança estrutural perigosa: em 2025, os conflitos interestatais duplicaram, atingindo o seu nível mais elevado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No total, foram registados 65 conflitos armados em 35 países, com um custo humano elevadíssimo de aproximadamente 245.000 mortos em combate, tornando este no terceiro ano mais letal desde o fim da Guerra Fria.
Dia Internacional da Paz
Assinalado a 21 de setembro, o Dia Internacional da Paz é um momento para reafirmar um princípio essencial: a paz não se resume à ausência de conflito. A paz constrói-se todos os dias, através do diálogo, da inclusão, do respeito pelos direitos humanos e da criação de condições para que as comunidades possam construir um futuro com mais oportunidades. Criado pela ONU em 1981 e celebrado a 21 de setembro, o Dia Internacional da Paz representa um apelo global ao cessar-fogo e à não-violência, reafirmando o compromisso com a resolução pacífica dos conflitos e a dignidade humana.
Prestes a deixar o cargo após uma década à frente das Nações Unidas, o secretário-geral António Guterres dedicou o seu último discurso à 81.ª Assembleia Geral a um veemente apelo. Associou as guerras que assolam o globo ao desrespeito pelos princípios fundadores da Carta das Nações Unidas e às regras do Direito Internacional.
Guterres alertou para quatro poderes dos quais depende o futuro da humanidade: o poder da guerra e da paz; o poder que concentra a riqueza e promove a desigualdade; o poder que alimenta o caos climático e a guerra contra a natureza; e o poder lançado pela Inteligência Artificial (IA). Para o secretário-geral, “o mundo não precisa de uma ONU mais fraca”, mas de uma instituição “suficientemente forte para enfrentar o mundo tal como ele está – e suficientemente determinada a construir o mundo como ele devia ser”. A sua conclusão foi clara: “O poder exige regras”.
Guterres reservou palavras duras para os civis que pagam o preço, desde o “horrendo” ataque do Hamas e o subsequente massacre em Gaza, ao “espectro de uma limpeza étnica” na Cisjordânia. Mencionou também a Ucrânia, onde os civis são alvo de ataques repetidos longe da frente de batalha, e alertou para conflitos menos presentes na comunicação social, como o Sudão e Myanmar.
Segundo os dados do PRIO em 2025, mais de 76.000 civis foram mortos devido a violência unilateral, o número mais alto registado desde o genocídio do Ruanda em 1994. O caso do Sudão é paradigmático, com a destruição de infraestruturas e massacres como o de El-Fasher, ilustra como a fragmentação interna e o envolvimento de atores externos tornam os conflitos mais letais e difíceis de resolver.
A necessidade de paz e de resolução pacífica de conflitos entrou no dia a dia com novos desafios. Como sublinha o Presidente da República, a paz é um modo de estar com os outros, que se aprende e pratica “no gesto pequeno, no respeito por quem pensa de outro modo, na recusa da violência como forma de resolver diferenças”. Seja em casa, na escola, no trabalho ou na política: “Se muitos optam pela guerra, a paz somos nós que a fazemos”.
Este mote alinha-se perfeitamente com o lema escolhido pelas Nações Unidas para a comemoração em 2026 do Dia Internacional da Paz – 21 de setembro: “investir na paz, para todos, em todo o lado, todos os dias”. E este investimento já produz frutos tangíveis a nível local. Na mensagem para este dia, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, lembra que, num contexto internacional marcado pelo aumento dos conflitos e pelo enfraquecimento do diálogo, a construção da paz exige ação. “É uma escolha ativa e deliberada de investir num futuro melhor”.
É precisamente nesta perspetiva que a cooperação para o desenvolvimento pode contribuir para processos de paz mais duradouros. Investir nas pessoas, fortalecer as organizações locais, criar oportunidades económicas, proteger os recursos naturais e promover o diálogo são também formas de consolidar a paz e de responder a algumas das causas profundas dos conflitos.
A Paz na Colômbia através do associativismo e da bioeconomia
Na Colômbia, o Acordo de Paz de 2016 abriu um novo capítulo depois de décadas de conflito armado. Num território profundamente marcado pela violência, pela exclusão e pela presença de economias ilícitas, tornou-se necessário criar novas oportunidades e condições para que as comunidades pudessem permanecer e prosperar.
É neste contexto que o IMVF tem desenvolvido, desde 2018, um trabalho contínuo em Caquetá, com suporte de parceiros locais. O atual projeto Caquetá Eco – Territórios Económica e Ecologicamente Sustentáveis deu continuidade ao trabalho iniciado com o projeto Territórios Sustentáveis para a Paz em Caquetá.

Com o objetivo de apoiar diretamente mais de 3.016 pessoas (754 famílias), o Caquetá Eco apostou no fortalecimento de organizações produtivas, das práticas agroflorestais, de cadeias de valor e de modelos de negócio sustentáveis, enquanto promovia a conservação da biodiversidade, a restauração dos ecossistemas e a utilização de energias renováveis.
Como afirmou João Monteiro, coordenador de projetos do IMVF, no artigo publicado pelo Expresso sobre os dez anos do Acordo de Paz colombiano, “A assistência técnica de especialistas portugueses e a colaboração científica de peso, como a do Instituto Sinchi [Instituto Amazónico de Investigaciones Cientificas], criaram a base para algo muito mais profundo do que a ajuda humanitária: a criação de alternativas económicas sustentáveis. Hoje, o foco está na preservação da Amazónia através da bioeconomia.”
A paz constrói-se também através de uma economia que cria oportunidades, de comunidades que recuperam a capacidade de decidir sobre o seu território e de um desenvolvimento que não deixa para trás quem viveu durante décadas no centro de um conflito.
Na Guiné-Bissau, diálogo e a coesão para prevenir o extremismo violento
Na Guiné-Bissau, o Observatório da Paz – Nô Cudji Paz, implementado pelo IMVF em parceria com a Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), trabalhou sobre o compromisso da prevenção do radicalismo e extremismo violento através do reforço do diálogo, da participação e do trabalho em rede.
Dados do Observatório da Paz indicam que foram já formadas e sensibilizadas 4.903 pessoas, das quais 2.411 são mulheres (49,2%), demonstrando um compromisso robusto com a igualdade de género na base da construção da paz. O projeto envolveu organizações da sociedade civil, líderes religiosos, mulheres, jovens, jornalistas, meios de comunicação social e representantes da Administração Pública, contribuindo para colocar o diálogo e a coesão social no centro da prevenção da violência.
No próprio dia 21 de setembro, a LGDH apresentou um Manifesto para a Paz, a Coesão Nacional e o Estado de Direito na Guiné-Bissau, reafirmando o seu compromisso com a paz e os direitos humanos na Guiné-Bissau. O documento reúne dez pontos considerados essenciais para a promoção de uma sociedade mais pacífica e para a valorização do diálogo.
Da Colômbia à Guiné-Bissau, experiências tão diferentes, mas que mostram que a paz quando existem oportunidades de geração de rendimento, quando as comunidades têm voz, quando os diferentes atores se conseguem sentar à mesma mesa, e quando o desenvolvimento contribui para reduzir as desigualdades, reforçar a confiança e criar perspetivas de futuro.
A propósito do Dia Internacional da Paz, o IMVF reafirma o compromisso de continuar a trabalhar com comunidades, organizações e parceiros locais para que a paz seja não apenas um objetivo, mas uma realidade construída todos os dias, em todos os territórios do mundo.